‘NOITE DE GAFE NO OSCAR’

A premiação do Cinema mais popular do mundo mais uma vez teve muitas surpresas agradáveis e desagradáveis. A noite do Oscar 2017 foi permeada por situações embaraçosas, mas não tão grandes como anúncio do vencedor de Melhor Filme, que mais uma vez não teve o seu diretor como o ganhador do troféu. Confira abaixo a lista comentada dos vencedores do Oscar 2017:

Melhor Filme

  • A Chegada
  • Cercas
  • Até o Último Homem
  • A Qualquer Custo
  • Estrelas Além do Tempo
  • La La Land – Cantando Estações
  • Lion – Uma Jornada para Casa
  • Moonlight: Sob a Luz do Luar

O vencedor – após uma gafe envolvendo uma troca de papéis – foi Moonlight

Pelo segundo ano seguido, o Oscar de Direção não acompanhou o Oscar de Melhor Filme. O vencedor – após uma gafe envolvendo uma troca de papéis – foi Moonlight, drama independente que também descolou o Globo de Ouro, o Critic’s Choice Awards e o Spirit. A história do jovem Trevor em sua jornada de descoberta pessoal e afetiva enquanto tenta sobreviver ao racismo, homofobia e criminalidade de Miami comoveu legiões ao redor do mundo, sendo novamente uma escolha política declarada do Oscar em premiar um filme que além do valor estético também agregue temáticas socialmente relevantes, o que acabou deixando para trás o escapista e romântico La La Land.

Melhor Diretor

Chazelle se torna o mais jovem diretor a ganhar a premiação.

Em sua segunda indicação, Chazelle se torna o mais jovem diretor ao ganhar a premiação com 32 anos de idade. Ainda que se destaque a sobriedade de Lonergan, a sensibilidade de Jenkins, a atmosfera impressionante de Villeneuve e a mão pesada para drama e violência de Gibson, deu mesmo para o diretor de La La Land, com seus elaborados planos sequência, transições imaginativas e uma criatividade quase sem fim para números musicais que promovem um pequeno passeio pela história do cinema.

Melhor Atriz

A consagração de uma carreira que alternou entre títulos adolescentes e filmes mais adultos e politizados.

Cheia de concorrentes fortíssimas – inclusive a impressionante Isabelle Huppert em Elle – a vitória foi para Emma Stone em seu papel da sonhadora aspirante a atriz Mia, que tem de escolher entre o sonho de ser atriz e o amor pelo pianista de jazz Sebastian (Ryan Gosling). A escolha causou estranhamento – dificilmente era considerada a concorrente mais forte em termos de caracterização e transformação, mas de qualquer forma foi a consagração de uma carreira que alternou entre títulos adolescentes (O Espetacular Homem Aranha, Superbad, Zombieland) e filmes mais adultos e politizados (Histórias Cruzadas). Mas dificilmente se pode dizer que seja a atuação de uma vida ou mesmo que a atriz esteja no ápice da maturidade artística que nem outras de suas concorrentes (Huppert, Streep, Portman).

Melhor Ator

  • Casey Affleck – Manchester à Beira-Mar
  • Andrew Garfield – Até o Último Homem
  • Ryan Gosling – La La Land – Cantando Estações
  • Viggo MortensenCapitão Fantástico
  • Denzel Washington – Cercas

Casey Affleck ganhou o Oscar aos 41 anos por interpretar o atormentado Lee Chandler.

Deu Casey Affleck, que ganhou o Oscar aos 41 anos por interpretar o atormentado Lee Chandler, homem devorado pelo culpa, que é obrigado a cuidar de seu sobrinho, depois de perder o irmão de maneira precoce. Realmente está convincente – e comovente – no papel de um personagem sem motivações, alcoólatra e violento. De narrativa e condução sóbria e sem saídas fáceis, é bem a cara do irmão mais “alternativo”, por assim dizer, do Clã Affleck.

Melhor Ator Coadjuvante

  • Mahershala Ali – Moonlight: Sob a Luz do Luar
  • Jeff Bridges – A Qualquer Custo
  • Lucas Hedges – Manchester à Beira-Mar
  • Dev Patel – Lion – Uma Jornada para Casa
  • Michael Shannon Animais Noturnos

Um papel forte e realmente impactante na trama, interpretado pelo primeiro muçulmano a vencer um Oscar.

Competindo com veteranos e novos destaques, Mahershala Ali, após conseguir grande destaque como os antagonistas Remy Danton em House of Cards e Boca de Algodão em Luke Cage, se consagrou em seu papel secundário no sensível Moonlight interpretando Juan, um traficante de crack de origem cubana com uma moralidade dúbia, ao mesmo tempo se preocupando com o traumatizado protagonista Chiron, ensinando-o e aconselhando sobre a vida e ao mesmo tempo vendendo drogas para a emocionalmente abusiva mãe do protagonista, Paula. A academia apreciou o papel trabalhado em tons de cinza, com o protagonista não sendo nem benigno nem maléfico, mas humano. Um papel forte e realmente impactante na trama, interpretado pelo primeiro muçulmano a vencer um Oscar.

Melhor Atriz Coadjuvante

  • Viola Davis – Um Limite Entre Nós
  • Naomie Harris – Moonlight: Sob a Luz do Luar
  • Nicole Kidman – Lion – Uma Jornada para Casa
  • Octavia Spencer – Estrelas Além do Tempo
  • Michelle Williams – Manchester à Beira-Mar

Viola Davis se consagra com seu primeiro Oscar.

O filme, saído de uma peça de teatro vencedora do Pullitzer do célebre dramaturgo August Wilson, não agradou a todos (sua linguagem é pouco cinematográfica e bastante teatral), mas em um aspecto todos deram o braço a torcer: Viola Davis. Ela já havia ganho um Tony pelo papel de Rose Maxson em 2010, quando Um Limite Entre Nós foi encenado no teatro, e agora se consagra com seu primeiro Oscar interpretando uma mulher que tem de conviver com o marido, um ex-esportista frustrado que desconta todos os seus fantasmas na família. Tentando cuidar do filho, ajudando-o no que precisa, e enfrentando o vilanesco cônjuge, é daqueles papéis fortes e guerreiros abordando pessoas comuns que facilmente despertam empatia, ainda mais interpretado pela atriz que ganhou proeminência com o filme Histórias Cruzadas e a série How To Get Away With Murder.

Melhor Trilha Sonora

Justin Hurwitz compôs temas que facilmente poderiam figurar em filmes da era de ouro de Hollywood.

La La Land não foi nada mal – das 14 indicações, ganhou seis, incluindo alguns dos principais prêmios da noite e sendo um musical de alto nível, obviamente papou grande parte dos prêmios musicais. Justin Hurwitz compôs temas que facilmente poderiam figurar em filmes da era de ouro de Hollywood.

Melhor Canção Original

  • Audition (The Fools Who Dream) – La La Land – Cantando Estações
  • Can’t Stop the Feeling – Trolls
  • City of Stars – La La Land – Cantando Estações
  • The Empty Chair – Jim: The James Foley Story
  • How Far I’ll Go – Moana – Um Mar de Aventuras

City of Stars é aquele tipo de tema que já nasceu clássico, para ser cantado até mesmo por quem já não ouviu.

Can’t Stop The Feeling é um das músicas mais divertidas lançadas recentemente. How Far I’ll Go é a melhor canção original da Disney desde Let It Go. Mas, sinceramente, City of Stars é aquele tipo de tema que já nasceu clássico, para ser cantado até mesmo por quem já não ouviu. A performance de John Legend durante a cerimônia só confirmou a força desse soft jazz introspectivo e com certo ar de lirismo.

Melhor Roteiro Adaptado

  • A Chegada
  • Cercas
  • Estrelas Além do Tempo
  • Lion – Uma Jornada para Casa
  • Moonlight: Sob a Luz do Luar

O vencedor do Oscar de Melhor Filme e Ator Coadjuvante também venceu por Roteiro Adaptado, com o dramaturgo Tarell Alvin McCraney transpondo com sensibilidade o roteiro de sua peça “In Moonlight Black Boys Look Blue” ao lado do diretor Jenkins sobre uma história fictícia mas que poderia muito bem ser realidade.

Melhor Roteiro Original

  • A Qualquer Custo
  • La La Land – Cantando Estações
  • A Lagosta
  • Manchester à Beira-Mar
  • 20th Century Women

Das histórias criadas diretamente para a tela grande, entre títulos dos mais diversificados – incluindo aí a perturbadora distopia O Lagosta – ganhou a história dramática e sóbria sobre perda, culpa, vícios e responsabilidade de Manchester à Beira-Mar. O diretor e roteirista Kenneth Lonergan tem o seu primeiro grande destaque na carreira – os anteriores haviam sido a comédia A Máfia no Divã e o co-roteiro em Gangues de Nova York. A dramaticidade de sua história foi considerada uma das mais gratas surpresas da premiação.

Melhores Efeitos Visuais

O vitorioso foi o filme de Jon Favreau, que recriou a clássica história de Rudyard Kipling para os tempos modernos com uma fauna realista e convincente totalmente criada em computador, dando espaço para os atores brilharem sob suas máscaras digitais e deixando para trás filmes como Rogue One e Doutor Estranho.

Melhor Animação

  • Kubo e as Cordas Mágicas
  • Moana – Um Mar de Aventuras
  • Minha Vida de Abobrinha
  • The Red Turtle
  • Zootopia: Essa Cidade é o Bicho

Sucesso de crítica e público

Sempre uma concorrente forte, a Disney trouxe duas animações esse ano, sendo o vencedor Zootopia, sucesso de crítica e público que foi muito elogiado por sua crítica social e mensagem forte jogado em um caldeirão de sequências de ação e piadas rápidas. O padrão de excelência Disney pode não lançar uma obra-prima sempre, mas seus filmes são acima da média e qualquer prêmio que ganhem, por melhor que seja a concorrência (os criativos Kubo e Minha Vida de Abobrinha e o belo A Tartaruga Vermelha), nunca será um resultado propriamente injusto.

Melhor Curta-Metragem De Animação

  • Borrowed Time
  • Pear Cider and Cigarettes
  • Pearl
  • Piper
  • Blind Vaysha

Um curta-metragem adorável cheio de referências a clássicos do cinema, como Ben-Hur. Bem o gênero de animação que o Oscar gosta.

Melhor Filme Estrangeiro

  • Land of Mine – Dinamarca
  • A Man Called Over – Suécia
  • O Apartamento – Irã
  • Tanna – Austrália
  • Toni – Alemanha

Farhadi não esteve presente e em seu discurso de agradecimento criticou pesadamente as leis xenófobas de Donald Trump.

Asgar Farhadi vence pela segunda vez o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro (o primeiro foi por A Separação, em 2001). A história de um casal de jovens atores iranianos que interpretam a peça A Morte de um Caixeiro-Viajante, clássico do dramaturgo Arthur Miller, enquanto seu relacionamento é abalado pela mudança de apartamento, ganhou contornos políticos: Farhadi não esteve presente e em seu discurso de agradecimento criticou pesadamente as leis xenófobas de Donald Trump.

Melhor Curta-Metragem

  • Ennemis Intérieurs
  • La Femme et le TGV
  • Silent Nights
  • Sing
  • Timecode

A vitória foi para o filme húngaro de 25 minutos sobre a adaptação de uma garota à sua escola nova e crueldade da diretora do coro, que vira alvo de investigação da protagonista com uma amiga determinada a revelar a verdadeira natureza da mulher.

Melhor Documentário Em Longa-Metragem

  • Fire at Sea
  • I Am Not Your Negro
  • Life, Animated
  • O.J.: Made in America
  • A 13ª Emenda

Julgamento do ex-jogador O.J. Simpson.

Ganhou o épico OJ: Made in America, documentário de sete horas e meia dividido em cinco partes que esmiúça aos mínimos detalhes o julgamento do ex-jogador O.J. Simpson, o assassinato de sua esposa, seu julgamento e o impacto midiático. Filme tão poderoso quanto exaustivo.

Melhor Documentário Em Curta-Metragem

  • Extremis
  • 1 Miles
  • Joe’s Violin
  • Watani: My Homeland
  • Os Capacetes Brancos

Já disponível na Netflix, o vencedor do Oscar de Melhor Curta Documentário conta em 40 minutos a história de um heroico grupo de resgate que arrisca a própria vida para salvar sobreviventes de bombardeios na Síria.

Melhor Maquiagem E Cabelo

Criou de maneira realista seus protagonistas ao mesmo tempo marcantes e cretinos.

Star Trek: Sem Fronteiras tem transformações impressionantes de atores em alienígenas esquisitos, mas ganhou mesmo um dos filmes mais malhados de 2016 pela criatividade com que criou de maneira realista seus protagonistas ao mesmo tempo marcantes e cretinos.

Melhor Mixagem De Som

  • A Chegada
  • Até o Último Homem
  • La La Land – Cantando Estações
  • Rogue One: Uma História Star Wars
  • 13 Horas: Os Soldados Secretos de Benghazi

Uma das poucas premiações para o filme de Gibson, que ganhou muito provavelmente pela sonorização impressionante e realista da brutalidade de uma guerra, que cerca o protagonista da trama, um soldado que se recusa a pegar em armas. Atmosfera sonora tão impressionante quanto ensurdecedora.

Melhor Edição De Som

  • A Chegada
  • Horizonte Profundo: Desastre no Golfo
  • Até o Último Homem
  • La La Land – Cantando Estações
  • Sully – O Herói do Rio Hudson

É fato que, a não ser que sejam em categorias técnicas, filmes de gênero tem poucas chances em uma premiação declaradamente fã de dramas sentimentais. Aconteceu com A Chegada, que perdeu boa parte das indicações mas venceu por edição de som, pela criação esquisita e comovente do primeiro contato da humanidade com alienígenas diferentes de tudo que já vimos antes.

Melhor Montagem

  • A Chegada
  • A Qualquer Custo
  • Até o Último Homem
  • La La Land – Cantando Estações
  • Moonlight: Sob a Luz do Luar

Explora cortes rápidos, câmera lenta, closes e planos abertos com uma sensibilidade classicista.

Pode apostar que a montagem foi um dos principais fatores que Gibson explorou para erguer seu semi-épico sobre o papel de um pacifista na guerra. A montagem explora cortes rápidos, câmera lenta, closes e planos abertos com uma sensibilidade classicista que quase não se vê mais por aí.

Melhor Fotografia

  • A Chegada
  • La La Land – Cantando Estações
  • Lion – Uma Jornada para Casa
  • Moonlight: Sob a Luz do Luar
  • Silence

Há muito tempo não se via um filme tão visualmente vivo.

La La Land demorou para começar a ganhar, mas papou um número grande de prêmios. O de Fotografia parecia meio óbvio – não desmerecendo as atmosferas impressionantes de A Chegada ou Silêncio ou a experimentação de Moonlight, mas as cores, os cenários, as  transições, os planos sem corte, os pontos de vista, a iluminação… Há muito tempo não se via um filme tão visualmente vivo, em mutação e ebulição de cores, luz e sombra como La La Land.

Melhor Figurino

A “esquisitice conservadora”, misturando os terninhos ingleses com magia, ganhou por trazer à tela o visual único e original do universo Harry Potter.

A nova franquia de Rowling ganhou em um prêmio não tão óbvio, entre uma sci-fi criativa, um musical hipercolorido e uma recriação de época, mas a “esquisitice conservadora”, misturando os terninhos ingleses com magia, ganhou por trazer à tela o visual único e original do universo Harry Potter.

Comentários

comentários