NETFLIX | 3% (CRÍTICA)
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‘SÉRIE SE PERDE EM PRÓPRIA AMBIÇÃO’

Algumas séries originais da Netflix têm um padrão de exibição que é favorecida pelo sistema de maratona que a empresa possibilita – a de disponibilizar todos os episódios de uma vez. Acontece que assim, as obras tendem a parecer mais um filmão de X quantidade de episódios – que depende da série – e facilita o entendimento. Em 3%, a maior qualidade é exatamente isso, o formato ‘filmão’ que consegue prender o espectador nos 8 episódios da primeira temporada, mesmo com falhas.

Baseado em uma websérie de 2009 com apenas 3 episódios, o enredo é ambientado em um mundo pós-apocalíptico devastado por uma crise, dividindo a sociedade em duas classes: o Continente (lugar onde faltam recursos básicos de sobrevivência) e o Maralto (lugar abundante de recursos e sonho da maioria dos moradores do Continente). Todo ano, o Maralto faz uma seleção de testes chamada de Processo, em que os moradores com 20 anos do “Lado de cá” (outro nome para Continente) têm uma chance de poder desfrutar de toda condição do “Lado de lá” (o Maralto). Ao longo dos oito episódios, 3% acompanha a bateria de testes dos personagens, ao mesmo tempo em que tenta ser algo a mais quando busca estabelecer erroneamente uma forma de protesto ao sistema capitalista e buscar justiça, defendidos pela Causa.

Com uma narrativa batida e jovem, muitas vezes mostrada no cinema por Jogos Vorazes, Divergente e Maze Runner.

Com uma narrativa batida e jovem, muitas vezes mostrada no cinema por Jogos Vorazes, Divergente e Maze Runner, 3% segue seu ritmo nas limitações do roteiro. Enquanto os títulos cinematográficos conseguem mesclar o entretenimento com a mensagem de moral, a Causa, grupo rebelde que é contra o sistema imposto pelo Maralto, não diz a que veio. Não fica claro se eles são contra a injustiça do mundo pós-crise ou se apenas não são a favor de somente 3% passarem no Processo. A Causa é mencionada com um certo receio pelo Maralto, porém não demonstra toda a força que aparenta nas conversas dos corredores. No término do ano de estreia, entretanto, fica somente subentendido que ela será mais abordada na próxima temporada. Aliás, sensação de “subentendido” é o que mais fica no roteiro da série, porque o espectador tem que entender tudo o que se passa e fala em cena, mesmo não sendo uma missão muito difícil.

Tudo é simplesmente imposto; das motivações do Maralto em selecionar apenas 3% do restante da população; das motivações dos infiltrados da Causa no Processo; das motivações do conselheiro Mateus para sabotar o chefe do Processo Ezequiel (João Miguel); das motivações dos personagens em estarem ali, mesmo acreditando que o Processo seja uma injustiça. Nada é devidamente explicado e fica uma sensação de que falta um equilíbrio entre Narrativa x Desenvolvimento. A trama é bem criada mas mal desenvolvida. Essa falta de convicção acaba resultando em uma confusão na atuação do elenco, que, com exceção do experiente João Miguel e da personagem de Vaneza Oliveira, não sustenta seus papéis. Fernando (Michel Gomes) é um cadeirante que foi criado por seu pai com um único propósito: passar no Processo. Porém, suas razões mudam constantemente no meio da trama sem sentido algum, incrementando um romance raso e sem profundidade. Já Aline (Viviane Porto) começa a série como uma mulher negra no alto escalão, algo ainda pouco visto na Indústria, que vai perdendo força e propósito, e seu arco, indefinido. Aqui o destaque vai para Joana (Vaneza Oliveira). Vaneza O. consegue desenvolver em cada episódio a grandeza e a ameaça que a personagem provavelmente deve causar na próxima temporada.

João Miguel é o chefe do Processo Ezequiel.

Uma tradição que a Netflix mantém em 3% é a direção de arte competente. A fotografia da série é muito bonita, com cores neutras para o destacar a simplicidade e a tecnologia do Lado de Lá, e a explosão de cores nas entranhas da cidade. Essa extravagância do Continente é um vago lembrete de que, mesmo na dificuldade, há esperança. A filmagem muitas vezes tremida favorece em deixar cada prova única e desesperada, destaque para os episódios “Cubos”, “Corredor” e “Portão”.

A primeira produção brasileira original da Netflix conquista pois soube usar a maratona como aliada, mas decepciona ao tentar ser tudo em apenas uma temporada. 3% tem um projeto muito ambicioso e ainda mais trabalho pela frente, tanto para manter a narrativa quanto para trabalhar nos personagens.

Ficha Técnica


3%
Distribuidor: Netflix
Gênero: Drama, Ficção Científica, Suspense
Classificação Etária:
Data de Lançamento:  2016
Tempo de Duração: 47 min
Direção: Jotagá Crema, Daina Giannecchini, Dani Libardi, Cesar Charlone
Roteiro: Cássio Koshikumo, Pedro Aguilera, Jotagá Crema
Produção: Tiago Melo
Diretor de Arte: Valdy Lopes Ferreira

Elenco: João Miguel (Ezequiel), Bianca Comparato (Michele), Michel Gomes (Amy), Helen Mirren ( Brigitte), Edward Norton ( Whit Yardsham), Naomie Harris (Madeleine), Michael Peña (Simon), Jacob Latimore (Raffi), Enrique Murciano (Stan), Kylie Rogers (Allison Yardsham), Ann Dowd (Sally Price) e Shirley Rumierk (Fiona)

Sinopse:

Em um futuro pós-apocalíptico não muito distante, o planeta é um lugar devastado. O Continente é uma região do Brasil miserável, decadente e escassa de recursos. Aos 20 anos de idade, todo cidadão recebe a chance de passar pelo Processo, uma rigorosa seleção de provas físicas, morais e psicológicas que oferece a chance de ascender ao Mar Alto, uma região onde tudo é abundante e as oportunidades de vida são extensas. Entretanto, somente 3% dos inscritos chegarão até lá.

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