‘UM MÁGICO EM ARRANCAR RISADAS’

29 de Agosto de 2016 é o dia em que damos adeus a um dos grandes nomes da comédia americana: Gene Wilder. Um daqueles nomes que, apesar de ter seus momentos no drama, pode-se dizer que é um dos maiores especialistas em seu ramo de vocação. Teve seu debut nas telas como coadjuvante, interpretando um refém no violento drama Bonnie e Clyde – Uma Rajada de Balas (1967).

Após isso, o ator, que iniciou suas carreiras no teatro, estrelaria uma carreira cheia de papéis marcantes entre o final da década de sessenta e início da de 90, marcando seu nome em Hollywood não apenas como ator cômico mas também como roteirista e diretor, tendo colaborado com uma série de outros nomes consagrados do gênero, como Mel Brooks e Richard Pryor, com quem teve parcerias igualmente marcantes.

Semi-aposentado há mais de 20 anos, dedicado à escrita, pintura e apenas com participações pontuais na televisão, Wilder é um nome o qual certamente todos têm sua relação pessoal, tanto a audiência mais jovem quanto a mais madura guardando suas memórias afetivas do ator. Relembremos então, dez dos seus filmes mais marcantes, em ordem cronológica, torcendo que para onde quer que tenha ido Wilder esteja arrancando risadas por lá.


Primavera para Hitler (Mel Brooks, 1968)

O primeiro papel de protagonista de Wilder também marcou a primeira das parcerias com o lendário diretor e ator Mel Brooks. Wilder interpreta um contador malandro que convence um produtor teatral que uma maneira excelente de ganhar dinheiro com um musical da Broadway seria fazendo um fracasso comercial. Surpreendendo os espectadores por ir na contramão do estilo mais pastelão que consagraria os filmes de Brooks, Primavera Para Hitler e seus protagonistas gananciosos são apresentados em um humor mais negro, sarcástico e politicamente incorreto.


A Fantástica Fábrica de Chocolates (Mel Stuart, 1971)

Curiosamente, o que hoje é considerado o filme mais famoso do ator, não alcançou sucesso imediato, lucrando pouco além do orçamento original quando foi lançado. Porém, as sucessivas reprises televisivas tornaram um clássico cult, a adaptação do livro infantil homônimo onde um pobre garoto e seu avô encontram um bilhete dourado e se torna um dos poucos sortudos a conhecer a maior fábrica de chocolates do mundo, habitada pelo fantástico Willy Wonka (Wilder) e seus Oompa-Loompas. Com um colorido berrante e psicodélico na direção de arte típico dos anos 70 e com uma moral ensolarada ao seu final, tornou-se um favorito entre crianças e adultos nostálgicos.


Tudo o que Você Queria Saber Sobre Sexo* Mas Tinha Medo de Perguntar (Woody Allen, 1972)

Na época mais anárquica e ácida de Woody Allen e suas comédias urbanas sobre sexualidade e neurose temos este filme separado em várias esquetes com um elenco estrelar à época. Wilder está hilário como um respeitável médico que tem sua vida arruinada ao se apaixonar pela ovelha de um paciente armênio. O principal ingrediente da composição é a seriedade com que Gene interpreta o atormentado personagem, jamais apelando para caretas ou gritos. Sua interpretação genuinamente desesperada de um contexto ridículo ainda é capaz de arrancar gargalhadas.


Banzé no Oeste (Mel Brooks, 1974)

Paródia de Brooks dos filmes de faroeste, onde o diretor também atua como William, um político corrupto que quer arruinar uma cidadezinha nomeando Bart, um xerife negro de pronto hostilizado pela população racista da cidade. O bondoso Bart tem como um de seus únicos aliados o pistoleiro bêbado The Waco Kid (Wilder), mas isso não o impede de tornar-se um dos principais opositores de William. Brooks era um mestre do pastelão, sabendo utilizar de maneira tão engraçada quanto crítica, e a razão de ter Wilder como seu ator-fetiche ter feito tanto sucesso era exatamente essa habilidade de saber conciliar exagero e sutileza.


Jovem Frankenstein (Mel Brooks, 1974)

Filmado no mesmo castelo onde James Whale dirigiu o clássico Frankenstein em 1931 estrelando o icônico Boris Karloff como a clássica criatura, Brooks e Wilder fizeram O Jovem Frankenstein, onde o ator interpreta o neto de Victor Frankenstein em uma subversão pastelona das aterrorizantes cenas do original, tendo como clássico e icônico coadjuvante Marty Feldman no papel do assustador ajudante Igor. Conhecendo a gramática cinematográfica, Brooks fez um filme tão atmosférico (feito em preto e branco, com grandes efeitos especiais) quanto hilariante. Talvez não seja tão dinâmico e rápido quanto as comédias de hoje (o famoso “demora para engrenar”), mas é um produto de qualidade superior.


A Dama de Vermelho (Gene Wilder, 1984)

Filme consagrado pela sua trilha sonora, vencedora do Oscar de melhor canção original (a clássica “I Just Called To Say I Love You” de Stevie Wonder), a refilmagem de O Doce Perfume do Adultério, comédia francesa de 1976, A Dama de Vermelho é uma produção de luxo, protagonizada e dirigida por Wilder, tendo Wonder e Dionne Warwick na trilha sonora e trazendo Kelly LeBrock como a personagem-título que desnorteia o aborrecido executivo Teddy Pierce, cada vez mais tentado a embarcar na aventura mais romântica da sua vida. Não é nenhuma joia, mas é inegavelmente um filme marcante, com as cenas onde Wilder observa LeBrock sendo uma espécie de reedição da clássica cena de Marilyn Monroe em “O Pecado Mora ao Lado”. O sucesso provou que as comédias picantes envolvendo a classe média, fidelidade, culpa e desejo ainda eram capazes de atrair público.


Loucos de Dar Nó (Sidney Poitier, 1980)

O filme que consagrou de vez a parceria Wilder-Richard Pryor (debutada em O Expresso de Chicago, com Pryor previamente tendo sido um dos roteiristas de Banzé no Oeste), lucrando mais de dez vezes o seu orçamento original. A dupla interpreta um dramaturgo e um ator que são confundidos com assaltantes e condenados a 125 anos de cadeia, com suas tentativas de rebelar-se contra a situação em que se meteram, ficando progressivamente mais engraçadas, reacendendo suas carreiras da mesma maneira que aconteceu com a dupla tardia Jack Lemmon e Walter Matthau. O jeito algo aparvalhado e algo tresloucado de Wilder casou com uma luva com o estilo nervoso e falastrão de Pryor (ver os dois recebendo a condenação, um atropelando o outro em ritmo frenético, mostra o timing de ambos). Até que faz sentido, visto que Gene veio do teatro e Pryor do stand-up. Filme dirigido pelo lendário Sidney Poitier em uma de suas investidas atrás das câmeras, é ver e entender porque tanta gente declara aos quatro ventos amar os anos 80.


Cegos, Surdos e Loucos (Arthur Hiller, 1989)

O terceiro filme da dupla é um dos mais queridos dos fãs das comédias que reprisam na televisão até cansar, apesar de ter feito menos bilheteria que Loucos de Dar Nó e ter recebido bem mais críticas negativas, com muitas publicações e jornalistas famosos detonando a trama no meio do caminho entre o pastelão e a comédia de erros sobre um jornaleiro surdo e seu funcionário cego que caem de paraquedas em um esquema criminoso, que os fazem serem perseguidos tanto pelos bandidos quanto pela polícia. Ainda que a trama realmente não seja tão inspirada, Pryor e Wilder compensam com seus diálogos entrecortados, cheios de respostas na ponta da língua e mais absurdos a cada minuto de projeção, com Pryor sendo o protagonista de uma cena de rolar de rir (quem já viu entendeu a referência). Filme para quando rolar os créditos sentir as maçãs do rosto doendo. 

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