‘EM SANGUE DO MEU SANGUE, A RELIGIÃO É UM DOS PRINCIPAIS TEMAS DA HISTÓRIA’

Educado em um colégio católico, o consagrado diretor Marco Bellocchio (Vincere, A Bela que Dorme, Em Nome do Pai) sempre teve uma relação conturbada com a religião. Em seus filmes, frequentemente explora o lado mais obscuro da Igreja Católica, caso de Em Nome do Pai (1971), onde faz uma crítica ao ensino religioso através dos questionamentos do protagonista.

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História tem uma forte crítica à Igreja e à própria sociedade

Em Sangue do Meu Sangue, a religião retorna como uma das principais temáticas. No filme, há uma forte crítica à Igreja e à própria sociedade, colocando-as como julgadoras implacáveis e arbitrárias, e enfatizando o falso moralismo daqueles que se julgam dignos de um lugar superior. Além disso, os conflitos internos dos personagens tem grande importância para o roteiro. Em uma entrevista concedida ao jornal Estadão, em outubro, o diretor afirmou: “A psicanálise teve importância fundamental em minha vida. Ela figura como horizonte de percepção e portanto está na minha obra de maneira inequívoca.”

Buscando um enterro digno para o irmão, um padre suicida, Federico (Pier Giorgio Bellocchio) vai até o convento da cidade de Bobbio para acompanhar o julgamento de Benedetta (Lidiya Liberman), freira com quem Francesco tinha um relacionamento. Acusada de ter feito um pacto com o demônio e seduzido Francesco, Benedetta passa por uma série de provações para comprovar sua inocência, e acaba encantando Federico.

O processo de julgamento da jovem é inquietante. Para que confesse seus crimes, Benedetta é submetida a uma série de torturas medievais, e condenada sob uma ótica machista, sendo a única pecadora da situação na qual está envolvida. Ainda assim, ela jamais reclama. Na tela, aparece quase sempre com o rosto limpo e iluminado: a representação de sua inocência.

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Benedetta é submetida a uma série de torturas medievais

O drama de Federico e Benedetta, porém, é interrompido por outra história. Na atualidade, e no mesmo convento, agora abandonado, vive um misterioso idoso que só circula pela cidade à noite. Desgostoso com o andamento do mundo moderno, o Conde (Roberto Herlitzka), como é conhecido, se vê sem saída quando um bilionário russo surge na cidade, determinado a comprar o convento. Pouco disposto a se mudar, o Conde, um suposto vampiro, começa a procurar meios para que possa permanecer em seu “esconderijo”. Ao contrário da melancólica primeira parte do longa, a história do Conde tem um tom mais leve, com cenas divertidas, quebrando o clima soturno inevitável em alguns momentos.

A trilha sonora, detalhe importante nos filmes de Bellocchio, é um dos pontos principais da história. A música parece ser uma das poucas coisas que o Conde idoso ainda valoriza: ele faz questão de cantar todas as noites (sua voz, aliás, é um presente para o público), harmonizando com seus criados. Quando vê um grupo de jovens entoando um clássico italiano junto ao piano, suspira. As provações de Benedetta e os conflitos internos de Federico são marcados por um coral infantil, que canta uma versão de “Nothing Else Matters”, do Metallica.

Apesar dos gêneros diferentes, a conexão entre as duas histórias vai além do convento e da cidade de Bobbio. A fotografia sombria, enfatizando o tom do roteiro, assim como a importância da trilha sonora e as questões sociais e humanas levantadas pelas duas partes do filme conseguem, estranhamente, criar um elo entre ambas.

Ficha Técnica

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SANGUE DO MEU SANGUE (Sangue del mio sangue)
Distribuidor/ Produtora: Fênix Filmes
Gênero: Drama
Classificação Etária: 14 anos
Data de Lançamento: 1 de Dezembro de 2016
Tempo de Duração: 1h 29min
Direção: Marco Bellocchio
Roteiro: Marco Bellocchio
Produção: Beppe Caschetto, Fabio Conversi, Tiziana Soudani
Diretor de Fotografia: Daniele Cipri

Elenco: Pier Giorgio Bellocchio (Federico), Lidiya Liberman (Benedetta), Alba Rohrwacher (Maria), Federica Fracassi (Marta), Roberto Herlitzka (Comte), Ivan Franek (Rikalkov)

Sinopse:

No século XVII, Federico vai até o convento da cidade para acompanhar o julgamento da freira Benedetta, acusada de seduzir seu irmão gêmeo suicida. Na atualidade, um Conde idoso se sente deslocado diante do mundo moderno, e luta para manter seu lar.

CRÍTICA | SANGUE DO MEU SANGUE
Direção
Roteiro
Elenco
Fotografia
Trilha Sonora
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