Excesso de açúcar

O longa de André Ristum é um filme esforçado e muito bem produzido. Sua finalização,  cinematografia e direção de arte (tanto na cenografia quanto nos figurinos) resplandece o tempo todo a proposta de ser um filme “luxuoso”,  que reconstitui a época que retrata em seus mínimos detalhes.

Nando,  um garoto de 12 anos,  acompanha as aventuras do pai Antônio  (Eduardo Moscovis) na tentativa de vencer na vida. Pai esforçado e afetuoso,  ainda que sonhador demais para o seu próprio bem. Após tentar ser garimpeiro e tentar inúmeros bicos, é estimulado pelas promessas de reformas de base do então presidente João Goulart e se muda para Brasília.

Mas enquanto Nando,  interpretado por Davi Galdeano, amadurece a paixão pelas histórias fantásticas do pai em um interesse febril por literatura,  graças à Yolanda,  professora que lhe estimula o hábito,  o país passa por profundas agitações sociais que acabarão resultando no Golpe Militar de 1964.

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Pai e filho então passam a se envolver cada vez mais com política. Antônio passa a fazer parte de greves sindicais enquanto Nando passa a ler cada vez mais sobre história e teoria política. Ambos enfrentam um processo de desencanto em relação ao mundo que conheciam no interior de Minas Gerais e o mundo novo agitado e inseguro que o Distrito Federal apresenta.

Os melhores momentos do longa são,  como já foi dito,  a reconstituição proposta,  incluindo as imagens de arquivo do momento político que o país enfrentava e inúmeros programas televisivos e comerciais publicitários da época. Mas em grande parte o filme não assume grandes riscos – apela frequentemente para um sentimentalismo inócuo e genérico,  simplificando seus personagens  (apenas os dois centrais tem qualquer desenvolvimento além do básico) e é maniqueísta de maneira incontornável.

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Sim,  o Regime Militar brasileiro foi um período de trevas em nosso país,  indefensável. Mas isso não é desculpa para simplificar a questão em uma relação “bem x mal”,  simplória e disposta a despertar compaixão a qualquer custo. Há meios melhores e mais sofisticados para questionar o espectador e propôr um debate inteligente de ideias.

Não é o caso. De forma a conduzir o espectador,  a fotografia é básica,  pouco ousada e sempre iluminando seus personagens em tons pastéis leves para que pareçam leves e benignos. A música emocionante é utilizada ostensiva,  pontuando frequentemente cada conversa que envolve sentimentos de uma maneira que chega a soar repetitiva. Ainda que sejam músicas do genial Milton Nascimento,  nem isso salva. Trilha sonora não depende apenas da qualidade da música em si,  mas como é colocada e editada no filme,  com inteligência e não com apelação a qualquer custo.

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No máximo,  o filme não ofende ninguém. Mas não traz nada novo a um debate,  insiste em ser quadrado,  preto no branco em sua narrativa e quer ser emocionante de forma rasteira a todo momento. Esse excesso de açúcar,  na verdade,  é o grande vilão da obra,  deixando suas estruturas mais básicas tremendamente frágeis.

Ficha Técnica

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O OUTRO LADO DO PARAÍSO 
Distribuidor/Produtora:  Europa Filmes
Gênero: Drama
Classificação Etária: 10 anos
Data de Lançamento:  2 de Junho de 2016
Tempo de Duração: 1h 42 minutos
Direção: Andre Ristum
Roteiro: Andre Ristum, Marcelo Müller
Produtores: André Ristum, Marcio Curi, Pedro Rovai
Trilha Sonora: Patrick De Jongh
Diretor de Fotografia: Jean Manzon
Montador: Gustavo Giani
Elenco: Camila Márdila, Davi Galdeano, Eduardo Moscovis, Flávio Bauraqui, Jonas Bloch, Murilo Grossi, Simone Iliescu.

 

SINOPSE:
Anos 1960, Brasil. Através do olhar de Nando, um garoto de 12 anos, acompanhamos a trajetória de Antônio, um idealista sonhador. O desejo de ascensão social leva toda a família a se mudar para a recém-inaugurada e ainda em construção cidade de Brasília. Movido pelos movimentos políticos da época e pelas reformas prometidas pelo Presidente João Goulart, Antônio se aproxima do ativismo político e da luta dos trabalhadores. Em abril de 1964, da noite para o dia, os sonhos se transformam em pesadelos.

Crítica | O Outro Lado do Paraíso
Roteiro
Direção
Elenco
Fotografia
Montagem
Trilha Sonora
Pontos Positivos
  • Figurino
  • Cenografia
Pontos Negativos
  • Roteiro
  • Trilha Sonora
2.1Pontuação geral
Avaliação do leitor: (2 Votos)

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Sobre o autor

Bernardo Brum
Trooper (Crítico)

Estudante de Jornalismo e crítico de Cinema desde 2011. Alfred Hitchcock é o seu diretor preferido.