‘UMA PRODUÇÃO COM TUDO O QUE SE ESPERA DE TIM BURTON’

A Segunda Guerra Mundial é um tema bastante recorrente no cinema americano, temos vários exemplos de filmes que retratam o evento que devastou milhares de pessoas e é lembrado como um dos momentos mais cruéis da história. O que não poderíamos esperar é que Tim Burton, um dos diretores mais irreverentes de Hollywood poderia também nos trazer um filme que estivesse ambientado nessa época.

“O Lar das Crianças Peculiares” é a adaptação do livro “O Orfanato da Srta. Peregrine para Crianças Peculiares”, de Ransom Riggs. Um filme atemporal, não apenas porque na história há uma fenda no tempo que une duas épocas, mas também pela qualidade de sua produção. O longa é ambientado na década de 40 e também em 2016, isto pode ser arriscado, mas o trabalho da roteirista Jane Goldman (X-Men: Dias de um futuro Esquecido – 2014) acertou em cheio, mostrando que é possível fazer um filme divertido sem deixar de explicar os assuntos que são realmente necessários, e pode deixar a desejar apenas no início da trama, quando se mostra um tanto cansativo para quem gosta de um enredo mais acelerado.

Eva Green como Srta. Peregrine

A história se desenvolve a partir da busca de Jacob, interpretado por Asa Butterfield (A Invenção de Hugo Cabret – 2011), pela verdade através das histórias que ouvia, quando criança, de seu avô Abraham Portman (Terence Stamp), o que lembra o aclamado filme de Tim Burton, “Big Fish”. Jake encontra “a fenda” que seu avô tanto falava em uma viagem com seu pai e a partir de então começa a aventura junto com as crianças peculiares do orfanato da Srta. Peregrine (Eva Green), que é responsável por manter as crianças em segurança, longe dos Etéreos, monstros que apenas pessoas com habilidades específicas conseguem ver. Esses monstros são comandados pelo personagem de Samuel L. Jackson, atuando de maneira divertida como Barron, um típico vilão “Burtoniano”. Quanto aos outros personagens, alguns poderiam ser mais bem explorados, e havia possibilidade para isso. Os Gêmeos (Joseph e Thomas Odwell), por exemplo, tornaram-se um mistério durante o filme, porém sua cena principal não foi suficiente para compensar toda a expectativa gerada, sendo rápida demais até para acompanhar a peculiaridade dos dois. Outro personagem que poderia ter sido mais trabalhado, talvez com flashbacks, é Victor (Louis Davison), irmão da Srta. Peregrine, parecendo estar ali apenas para assustar um pouco, sendo desnecessário para o desenvolvimento, porém ficando claro que teria a possibilidade para mais.

Samuel L. Jackson atuando de maneira divertida como Barron, um típico vilão “Burtoniano”

Falando sobre o elenco, quase todo infantil, a qualidade da atuação é grande, mas alguns personagens não demonstram tanta sintonia como era necessário para uma atuação em conjunto, o que é um perigo quando se trata de protagonistas, estou falando de Asa Butterfield e Ella Purnell, que dá vida à Emma, a garota mais leve que o ar. Os dois não decepcionam totalmente como atores, mas não demonstram tanta harmonia juntos. O grande destaque é de Eva Green, que dando vida à Senhorita Peregrine, atua sobriamente, encantando a todos desde a primeira cena, com beleza em cada gesto e muitas doses de mistério até o fim da película. Ela já esteve presente em outra produção do diretor, o longa-metragem “Sombras da Noite” (2012), e também não decepcionou os fãs. Seria Green a mais nova musa de Burton?

A produção do filme, assinada por Peter Chernin e Jenno Topping, é um dos pontos mais fortes, trazendo uma ambientação perfeita da década de 40, mas com importantes referências de outros filmes de Burton, como o já citado “Big Fish”, “Edward Mãos de Tesoura, o filme preferido do diretor, e até “Charlie e a Fantástica Fábrica de Chocolates”, referências que usadas nos momentos certos, permitem lembrar sutilmente que se trata de um filme autoral. A Fotografia também é bem utilizada aqui, e não podia esperar menos de um diretor que é lembrado justamente por sua experiência em filmes sombrios. A Trilha Sonora de Matthew Margeso casa com a ambientação das duas épocas demonstradas no filme, traz também a banda Florence and the Machine e destoa apenas na principal cena de ação, dando um tom mais divertido que de fato assustador. Os Efeitos Especiais também são um ponto muito forte do filme e uma das cenas que mais demonstra isso é quando Emma e Jake estão em baixo d’água, cena inclusive que demorou mais de uma semana para ser gravada, já que os atores tinham dificuldade de manter os olhos abertos, e não, não há erros de montagem aqui.

Asa Butterfield e Ella Purnell não decepcionam totalmente como atores, mas não demonstram tanta harmonia juntos

Apesar de alguns pontos que poderiam ser melhorados, o filme é mais um grande acerto de Burton, com oportunidade de deixar seus fãs orgulhosos pela grandiosidade da produção e cativando aqueles que não estão tão ligados ao seu trabalho. Um filme que aborda um tema já conhecido pelo grande público, que é o caso de superdotados, ambientado com uma época também muito habitual no cinema americano, é surpreendente ver Burton cada vez mais experiente em suas produções sem abandonar sua essência sombria. O “Lar das Crianças Peculiares” deixa uma vontade gostosa de conhecer cada personagem da história, de acreditar que é possível se aventurar com eles pelo tempo. Tim Burton nos entrega um filme mágico, que nos faz sair do cinema esperando uma sequência e  prova que ele merece o reconhecimento o qual tem recebido.

Ficha Técnica

o_lar_das_criancas_peculiares-2O LAR DAS CRIANÇAS PECULIARES (Miss Peregrine’s Home For Peculiar Children)
Distribuidor/ Produtora: Fox Film
Gênero: Aventura, Fantasia
Classificação Etária:  12 anos
Data de Lançamento:  29 de setembro de 2016
Tempo de Duração: 2h 07 min
Direção: Tim Burton
Roteiro: Jane Goldman
Fotografia: Bruno Delbonnel
Produtor: Peter Chernin
Trilha Sonora: Matthew Margeson

Elenco: Eva Green (Miss Peregrine), Asa Butterfield (Jacob), Samuel L. Jackson (Barron), Judi Dench (Miss Avocet), Rupert Everett (Ornithologist), Allison Janney (Dr. Golan), Ella Purnell (Emma), Terence Stamp (Abe).

Sinopse:
Após uma tragédia familiar, Jake (Asa Butterfield) vai parar em uma ilha isolada no País de Gales buscando informações sobre o passado de seu avô. Investigando as ruínas do orfanato “Miss Peregrine’s Home for Peculiar Children”, ele encontra um fantástico abrigo para crianças com poderes sobrenaturais e decide fazer de tudo para proteger o grupo de órfãos dos terríveis hollows.

CRÍTICA | O LAR DAS CRIANÇAS PECULIARES
Direção
Roteiro
Elenco
Fotografia
Efeitos Especiais
Trilha Sonora
4.1Pontuação geral
Avaliação do leitor: (2 Votos)

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