CRÍTICA | O DOUTRINADOR
Roteiro
Direção
Fotografia
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Trilha Sonora
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‘ TEMOS O NOSSO PUNISHER?’

Por Wladimir Mello

Antes de escrever minha opinião sobre o filme, destaco que a ideia de trazer para a telona heróis (ou anti-heróis) 100% nacionais é muito bem-vinda. Precisamos de mais gêneros em nossos selos verde-amarelo. Praticamente somos conhecidos por filmes do tipo “cabeça” (às vezes cabeças demais) ou comédias, estas últimas com ótimas opções. De vez em quando a gente só quer ver alguém resolvendo nossos problemas como os heróis fazem. Nessa levada, o diretor Gustavo Bonafé (Legalize Já – Amizade Nunca Morre, 2018) consegue fugir totalmente do óbvio e construir um olhar onde nos encontramos imersos e presos completamente até o seu desfecho.  

O filme, que é uma adaptação da HQ homônima de Luciano Cunha,  desenrola em época eleitoral, bem propícia para nossa época atual. Traz um grupo de elite policial envolvido numa missão para prender políticos corruptos (Spoiler…O Sérgio Moro não aparece no filme…hehehe). Neste grupo se destaca Miguel, personagem principal vivido pelo ator Kiko Pissolato (ótima escolha). Desde o início do filme, a corrupção é apresentada como principal motivo da falta de serviços públicos de qualidade e das desigualdades sociais. E este problema é o fator principal que leva Miguel a se tornar o Doutrinador, depois do policial viver a mais traumática experiência que uma pessoa pode passar. 

Com as habilidades adquiridas ao longo de sua experiência profissional, Miguel, sob a veste negra do Doutrinador, inicia o combate a um grupo político responsável por vários desvios públicos e que agora deseja se estabelecer nada menos que na presidência do país. Em sua jornada, o vigilante da máscara de gás, conta com a ajuda de Nina, interpretada pela atriz Tainá Medina (A Casa de Cecília, 2015), uma hackerativista, que consegue todos as informações para auxiliar o anti-herói e nos trás um pouco a referência à série Arrow

Não é um filme brando. Como diz o próprio cartaz do filme: “A corrupção criou o seu pior inimigo”.  Assim como os políticos são implacáveis em roubar o dinheiro público, o Doutrinador é implacável em suas ações. Espere cenas de violência, sangue e morte. Em dado momento é até mesmo possível questionar se o Doutrinador não passa dos limites, mesmo para aqueles (como eu) que acredita no combate feroz à corrupção. Não existe um momento em que o personagem entre em conflito com a ética moral dos seu atos. Impossível não associar o personagem ao Justiceiro da Marvel, que declarou guerra à máfia depois de perder sua família e não conseguiu mais sair de sua cegueira mortal de combate ao crime. 

“A corrupção criou o seu pior inimigo”

Alguns destaques incomodaram um pouco, mas nem de longe desqualifica o filme. Foram certos pontos sem amarração nas cenas de ação, na qual muito da luta já é mostrada depois de finalizada. Alguns erros de continuidade e uma certa confusão geográfica nas transições, principalmente na parte final do filme. Porém, podemos destacar a a fotografia de Rodrigo Guedes de Carvalho (Trash – A Esperança Vem do Lixo, 2014) que construiu uma plástica bem definida e com uma saturação bem limpa e viva, mas que ambientou o enrendo e seguiu o raciocínio da direção de Bonafé.  Algumas séries e filmes do gênero estão apresentando uma fotografia cada vez mais sombria para ambientar o suspense e o peso dos personagens, mas acabam pecando pela escuridão em excesso onde muito se perde do olhar da direção. Em Doutrinador, somos ambientados, sentimos o peso da ação e conseguimos enxergar o que o diretor quer mostrar. 

Mas uma vez, aproveitando a época atual e deixando de lado a ação e a construção do personagem, o filme tem até tempo de nos lembrar sobre tudo que ocorre, e que não é mais segredo no submundo político. Das trocas de favores, dos conchavos, da sujeira que coloca o país e principalmente os mais necessitados cada vez mais por clamar por heróis que resolvam da forma que o Doutrinador resolve o problema da corrupção. A grande equipe de roteiristas consegue entregar um roteiro no padrão de filmes de heróis dos estúdios americanos, mas com uma qualidade ainda melhor. Ele não se rende ao humor para prender a atenção e tirar risos do espectador. A construção do enredo se sustenta sem esse artificio e certamente estragaria o filme.

O Doutrinador é sem dúvida um excelente começo para um gênero totalmente novo para filmes nacionais e espero que tanto o criador do personagem, como os produtores apostem mais nesta faceta para nosso cinema. Por falar nisso, uma curta cena pós-créditos pode nos dar a esperança sobre isso.

Ficha Técnica

O DOUTRINADOR (2018)
Distribuidor:  DOWNTOWN FILMES
Gênero: Ação, Suspense
Classificação Etária: 16 anos
Data de Lançamento: 01 de Novembro de 2018
Tempo de Duração: 2h 28min
Direção: Gustavo Bonafé

Autor da Obra Original: Luciano Cunha

Elenco: Kiko Pissolato (Miguel); Samuel de Assis (Edu); Tainá Medina (Nina); Marília Gabriela (Ministra Marta Regina); Eduardo Moscovis (Governador Sandro Correa); Helena Ranaldi (Julia Machado); Natalia Lage (Isabela); Carlos Betão (Antero Gomes).

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