Diferente… Mas nem tanto

O que muitos destacaram após ver “O Caseiro” de Julio Santi é que, bem, este é um filme de mistério e terror sobre fantasmas, o que não se vê no Brasil – ou será mesmo? Já vimos assombrações em À Meia-Noite Levarei Sua Alma (1964), A Mulher do Desejo (1975), As Filhas do Fogo (1987), entre outras criaturas, o que mostra que o gênero definitivamente não é novo no Brasil – marginalizado sim, mas inédito não.

Mas sim, digamos que filmes como o de Walter Hugo Khouri em 87 e de Carlos Hugo Christensen em 1975, apresentando aquele mistério sobrenatural a conta-gotas consagrada na literatura pela novela A Outra Volta do Parafuso de Henry James e encontrando sucesso no cinema anglófono em filmes como Os Inocentes (1961), O Sexto Sentido (1999) e Os Outros (2001) não seja visto toda hora por aqui.

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O gênero de terror é marginalizado no Brasil

Com esse diferencial destacado desde o seu início é que vemos a história de Davi, um psicólogo e professor que investiga assuntos supostamente paranormais para tentar desacreditá-los e ao ser chamado por uma aluna, para investigar um fantasma que estaria atacando sua irmã mais nova. Uma filha cercada por mistérios e traumas está a espera do professor, ainda mais o pai, Rubens, homem que é atormentado desde a infância com a visão do caseiro que matou a família e cometeu suicídio. Caseiro esse que sua filha assombrada alega ver toda noite.

As atuações não se atém muito a regionalismos ou a localização, por isso a maioria dos diálogos serão duros, o que no final acaba casando com a atmosfera introspectiva e lenta, que não entrega tudo imediatamente. A direção e a fotografia reforçam esse aspecto – o reenquadro, moldura dentro da moldura, o enquadramento de espelhos e demais perspectivas são uma constante, assim como o movimento de câmera que segue seus personagens atormentados e revelam outros.

Aliás, é por isso que alguns chamam fotografia no cinema de cinematografia – se “fotografia” vem de “escrever com luz”, tal termo pode ser lido como “escrever com movimento”. E Santi faz isso o tempo todo, com a câmera sendo uma ferramenta tão ou mais fantasmagórica que a trilha sonora que, ainda que não tão diferenciada assim, ajuda a reforçar o clima de tensão crescente.

A Fotografia é o ponto forte do filme

Talvez o único defeito real na obra resida mesmo no último ato – após uma longa preparação, pistas falsas e alguns furos no roteiro, com personagens a mais que no final das contas não são desenvolvidos e nem tem peso para a história, o filme pesa imensamente a mão em uma reviravolta atrás da outra, disposto a fechar todos as suas tramas e subtramas que acompanham a história, com um final provavelmente planejado para causar surpresa. Mas digamos que após anos de plot twists já viciaram o espectador do gênero, então digamos que talvez possa passar para o público como algo de genérico demais.

 

OCASEIRO

Bruno Garcia é o cético personagem Davi e Pedro Bosnich é Pedro, seu fiel discípulo

Mas resumindo, é uma aposta válida para o cinema industrial nacional, cujo público reclama de faltas de obras de gênero mas não as vê no cinema, com as mesmas são produzidas em sua maioria de forma praticamente artesanal, na cara e na coragem e conseguindo pouquíssimas salas. Com o experiente e reconhecido ator Bruno Garcia à frente do elenco como o psicólogo protagonista, é de esperar que tenha mais oportunidade nas salas pelo país, como outras apostas como Quando Eu Era Vivo.

Mas está longe de causar grandes abalos no nosso cinema, por ter muitas afinidades com a mesmice do gênero em que escolheu. E ser mais um genérico, só que desta vez nacional, não é o grande diferencial que você poderia ambicionar. Mas sim, a aposta é válida e faz o dever de casa certinho. Só faltou mesmo um pouco daquele senso de novidade, da urgência pelo ineditismo, que os marcos do horror trazem consigo. Assista sem grandes expectativas pois nem toda ambição é alcançada.

Ficha Técnica

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O CASEIRO
Distribuidor/Produtora:  Europa Filmes
Gênero: Suspense, Terror
Classificação Etária: 12 anos
Data de Lançamento: 23 de Junho de 2016
Tempo de Duração: 88 minutos
Direção: Julio Santi
Roteiro: Julio Santi, Felipe Santi
Produtores: Rita Buzzar, Bruno Garcia
Fotografia: Ulrich Burtin
Elenco:
Bruno Garcia (Davi), Malu Rodrigues (Renata), Denise Weinberg (Nora), Leopoldo Pacheco (Rubens), Pedro Bosnich (Pedro)

Sinopse: 
Suspense que conta a história de Davi, um cético professor de psicologia, famoso por escrever um livro que explica aparições sobrenaturais através da psicanálise. Após anos sem atender pacientes, ele, com o intuito de escrever um novo livro, viaja para uma cidade do interior para investigar a história de um homem que acredita que sua filha está sendo assombrada pelo fantasma do antigo caseiro de sua propriedade, que se suicidou.

Crítica | O Caseiro
Direção
Roteiro
Elenco
Direção de Arte
Fotografia
Montagem
Pontos Positivos
  • Fotografia
Ponto Negativo
  • Genérico demais
3.1Pontuação geral
Avaliação do leitor: (2 Votos)

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