A verdade aparece em forma de História

“A mentira nunca fica escondida por muito tempo”, é a frase símbolo da investigação iniciada por Sidney Aguilar, historiador e professor, e adotada pelo diretor e roteirista Belisario Franca com o objetivo de descobrir a verdade por trás dos tijolos ornamentados com a suástica, símbolo nazista, descobertos em uma fazenda no interior de São Paulo. Não por coincidência, a família Rocha Miranda, proprietária da fazenda na época, adotou nada menos de cinquenta meninos negros na antiga capital do país, o Rio de Janeiro, no ano de 1933.

O período em que esses dois fatos ocorreram é marcado por um mundo mergulhando nos regimes nazistas e fascistas. Além de ter sido o último país do Ocidente a oficializar o fim da escravidão, nenhuma ação social foi aplicada aos escravos negros que aqui viveram sua vida, o que propiciou, por exemplo, concursos de “bebês perfeitos”, um ato segregacionista. Mas, principalmente, o que poucos sabem é até que ponto o Brasil absorveu a ideologia da eugenia, que esteve presente inclusive na Constituição de 1934? Uma informação muito grave é, também, o fato do Brasil ter abrigado a maior seção do Partido Nazista fora da Alemanha.

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Tijolo com a Suástica. Símbolo Nazista.

Ao raspar a sujeira de mais de setenta décadas dos tijolos marcados, Franca e Aguilar percorrem a vida desses cinquenta meninos que viveram dez anos de trabalho escravo e exploração em uma parte da História do Brasil escondida ou simplesmente renegada. Mais precisamente, o documentário conta a história de três desses meninos. Ao chegarem à fazenda, todos foram numerados por ordem de força e tamanho. “Dois” é o apelido que um dos personagens carregou durante toda a vida, levando consigo a marca de sua desumanização.

A técnica da materialidade é exposta de maneira tocante: O “Menino 23”, o senhor Aloísio Silva, aos 89 anos, ainda não se sentia confortável – até mesmo revoltado, segundo suas palavras, – em relembrar esse pedaço dolorido de sua história, sendo assim, ele foi convidado a ver fotos, documentos e outros materiais da época de sua adoção feita pela família Rocha Miranda e visitou o orfanato em que foi encontrado antes de ir à fazenda. Todos esses momentos são construídos pouco a pouco ao passo em que seu Aloísio se abria com esforço de quem luta contra suas próprias emoções ruins. Tocante, triste, emocionante a jornada em que somos levados ao interior do coração do passado do “Menino 23”, que não deixa de ser o passado de nossa História e de nós mesmos. Em contraponto, o segundo sobrevivente trazido às telas é Argemiro Santos, que toca no assunto com tom de piada, mostrando o tempo todo que sentia que seu destino era inevitável.

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Sem cair no drama ou perder o ritmo, as narrações são acompanhadas do começo ao fim por cenas interpretadas e estilizadas em preto e branco. Se as vezes meramente colocadas para traduzir em imagens os áudios, por outras vezes demonstra que aquela adoção em massa fez parte de cenário histórico e social tenebrosos.

Se há algum pecado no documentário, ele é o de não explorar mais ainda histórias adjacentes da vida dos personagens que conduzem essa viagem no tempo. Talvez a escolha seja por pura economia ou simplesmente para revelar, afinal, a crítica que o documentário levanta que é a analogia com o presente.

Escavando o passando, o filme adota o aspecto reflexivo sobre a realidade do presente: o que estamos fazendo com as correções de nossos erros? Será que apenas “liberar”, como Aloisio chama o dia em que foi jogado no mundo após dez anos na fazenda, é o suficiente? Qual suporte nós estamos dando aos que não são da elite? Parece que, assim como no passado, tirá-los de nossa casa ou da nossa presença é o suficiente para resolver um “problema”. O documentário mostra com sucesso que não é.

Ficha Técnica

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MENINO 23: INFÂNCIAS PERDIDAS NO BRASIL
Distribuidor/Produtora: Globo Filmes
Gênero: Documentário
Classificação Etária: 10 Anos
Data de Lançamento: 07 de Julho de 2016
Tempo de Duração: 1h 20min
Direção: Belisário Franca
Roteiro: Bianca Lenti, Belisario Franca
Edição: Yan Motta
Direção de Arte: Rogério Costa
Fotografia: Thiago Lima, Mário Franca e Lula Cerri.
SINOPSE:
A partir da descoberta de tijolos marcados com suásticas nazistas em uma fazenda no interior de São Paulo, o filme acompanha a investigação do historiador Sidney Aguilar e a descoberta de um fato assustador: durante os anos 1930, cinquenta meninos negros e mulatos foram levados de um orfanato no Rio de Janeiro para a fazenda onde os tijolos foram encontrados. Lá, passaram a ser identificados por números e foram submetidos ao trabalho escravo por uma família que fazia parte da elite política e econômica do país, e que não escodia sua simpatia pelo ideário nazista. Aos 83 anos, dois sobreviventes dessa tragédia brasileira, Aloísio Silva (o “menino 23”) e Argemiro Santos, assim como a família de José Alves de Almeida (o “Dois”), revelam suas histórias pela primeira vez.

Crítica | Menino 23: Infâncias Perdidas no Brasil
Direção
Roteiro
Fotografia
Montagem
Pontos Positivos
  • Roteiro
  • Direção de Arte
  • Montagem
Pontos Negativos
  • Histórias imcompletas
4.3Pontuação geral
Avaliação do leitor: (1 Voto)

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