CRÍTICA | LOGAN
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4.6Pontuação geral
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‘EXPOR A FRAQUEZA DE LOGAN MOSTROU SEU LADO MAIS FORTE’

O primeiro filme da franquia X-Men, lançado em 2000, foi o desbravador das adaptações cinematográficas baseadas em HQs e fez emergir uma nova era do cinema que arrasta multidões, cria blockbusters e arrecada bilhões de dólares. Atualmente a série de filmes não é a mais idolatrada entre os fãs geeks, mas alguns atores se destacaram com atuações icônicas, como, Halle Berry no papel de Tempestade, Sir Ian McKellen interpretando Magneto, Patrick Stewart como o poderoso Charles Xavier e Hugh Jackman se destacou ainda mais como o lendário Wolverine. Quase duas décadas depois, chegou a hora de nos despedirmos do ator na pele do personagem com o filme Logan, uma obra que certamente também é um marco.

O filme se passa em 2029 apresentando um futuro distópico aos mutantes e mostra um Logan cansado e desgastado pelos anos de combate como Wolverine. A única missão que lhe interessa agora é ganhar a vida como chofer e cuidar de Charles Xavier que está extremamente debilitado. Logan conta apenas com a ajuda do mutante Caliban (interpretado por Stephen Merchant, mais conhecido por seu trabalho como comediante) para garantir o restante da sanidade do professor. No meio desse marasmo surge X-23, interpretada por Dafne Keen (The Refugees, 2015), e assim o filme se desenvolve e revela os sentimentos de personagens que, até então, eram apresentados de forma totalmente engessada e sem a possibilidade de aprofundar emoções. Parte dessa complexidade é graças ao roteiro que foge dos clichês e apresenta uma nova visão sobre o mundo dos super-heróis.

Wolverine (Hugh Jackman) cuida de Charles Xavier (Patrick Stewart) que está extremamente debilitado.

O roteiro foi escrito em trio por Scott Frank, James Mangold (que também participaram de Wolverine – Imortal, 2013) e Michael Green (experiente em séries de televisão e que também escreveu o roteiro de Lanterna Verdade, 2011) e apresenta diversos elementos novos na história de Wolverine. Mesmo tendo como base o arco dos quadrinhos Velho Logan, lançado em 2008, essa série de HQs é usada apenas como ponto de partida para criar essa história que, aos fãs de X-Men, pode parecer uma colcha de retalhos. Vários elementos de origens diferentes convergem nesse filme e o resultado é impressionante. A própria personagem X-23 teve sua origem na série animada X-Men: Evolution (2000) e posteriormente foi inserida nas histórias em quadrinhos, mas sem ter alguma relação com Velho Logan.

A história agrada não apenas pela capacidade de homogeneizar tantos elementos, mas também pela forma emocionante que escolheu contar esse capítulo final. Toda a obra soa como uma enorme ode a todos que se envolveram nesse universo, mas se curva também ao gênero Western e ao próprio Hugh Jackman, além disso, a chuva de fan-service é um presente bônus a todos que acompanham a trupe de heróis antes mesmo de estrelarem no cinema e compreende como X-Men sempre levantou a bandeira da diversidade e aceitação do diferente.

Personagem que busca paz interior e meios de lidar com os próprios fantasmas para ajudar pessoas ao seu redor.

Um grande trunfo do longa é abrir mão de cenas grandiosas com explosões de cidades e lutas em slow motion para diálogos profundos que abrem caminhos para conhecimento afetivo e psicológico desses personagens que acompanhamos há tempos. Sentimos que foi preciso dizer adeus para conhecer Logan e ver como ele é uma grande ambiguidade e habita dentro de si ao mesmo tempo uma fera descontrolada e um ser humano amável e gentil, mas só agora, nesse momento de despedida, encontramos e confrontamos essas duas expressões do personagem.

A direção de James Mangold é uma redenção ao trabalho não muito satisfatório no segundo filme solo do herói e aqui nos deparamos com um longa tão sublime em diversos aspectos. A estética e os elementos técnicos fortalecem a sensação de um filme de velho-oeste moderno e as cenas de batalhas e lutas não se apresentam na forma que estamos acostumados a ver em filmes da Marvel. A sequência inicial já revela o tom do que estamos prestes a assistir e as cenas perdem aquele glamour e movimentos posados dando lugar a uma grande dose de violência, sangue e cabeças rolando.

Dafne Keen tem sua estreia na telona como X-23.

Trilha-sonora, figurino, ambientação e quase todas as faces técnicas estão plenamente afinadas e coordenadas de forma linear garantindo de forma conflitante a sensação de um filme bruto, mas sofisticado. Não por menos o longa cita e pega “inspiração” em Os Brutos Também Amam, clássico de 1953. Um aspecto não perfeito é a computação gráfica, mas mesmo assim garante o entretenimento nas cenas que os efeitos visuais são usados.

O trio de protagonistas do filme garante um espetáculo e um turbilhão de emoções ao espectador. Dafne Keen tem sua estreia na telona como X-23 / Laura Kinney e recebe o bastão de “substituir” Logan. A tarefa é difícil, mas a atriz mirim se mostrou extremamente confortável e capaz de cumprir a incumbência, mas se em uma ponta temos uma estreante, na outra temos alguém muito experiente. Patrick Stewart retorna ao papel de telepata, mas dessa vez com uma dinâmica diferente da que já vimos. Dessa vez se percebe uma inversão no comportamento de “mentor e aprendiz” e ao revelar a fragilidade do Professor X e sua dependência se trouxe à tona um desempenho memorável do ator.

Logan (Hugh Jackman) ganha a vida como chofer de limousine.

Hugh Jackman, que já provou há muito tempo ser um expoente de talento dessa geração, nos presenteia com um trabalho que remete ao seu papel em Os Miseráveis (2012). Onde interpretou Jean Valjean que lhe rendeu uma indicação no Oscar 2013 e ganhou o Globo de Ouro no mesmo ano, mas o tom da atuação se difere ao ver o comprometimento de registrar emoção no seu estado mais puro e selvagem. Em Logan, vemos o ator expressar de forma dolorosa e quase desconfortável de assistir a decadência de um homem que percebe a degradação e faz dela o objetivo principal de sua vida. Conflitante com isso se revela um personagem que busca paz interior e meios de lidar com os próprios fantasmas para ajudar pessoas ao seu redor.

Engraçado, para não dizer irônico, como o público se satisfaz em ver um super-herói não sendo extraordinário, mas nada que X-Men nunca tenha apresentado ao espectador. Mutantes sempre garantiram o debate de questões sociais e os filmes da saga os mostram de forma extremamente ampla. Diversas analogias do gene X se mantém atuais até hoje e representam minorias esmagadas socialmente. Entretanto, dessa vez o resultado foi ainda mais impactante, pois expor a fraqueza de Logan mostrou seu lado mais forte e comovente. De certa forma se percebe que tudo que queremos ver é o grande reflexo de um ser humano, afinal em tempos sombrios em que a segregação tem sido pregada é magnifico ver a telona estampada por algo que tem feito falta na vida real: humanidade.

FIcha Técnica


LOGAN
Distribuidor: Fox Film do Brasil
Gênero: Ação, Ficção científica, Aventura
Classificação etária:
Data de Lançamento: 02 de Março de 2017
Tempo de Duração: 2h 17min
Direção: James Mangold
Roteirista: James Mangold, Michael Green, Scott Frank
Trilha Sonora: Marco Beltrami
Produção: Hutch Parker, Lauren Shuler Donner, Simon Kinberg
Montador Chefe: Michael McCusker
Efeitos Visuais: John Berrie
Produtor Executivo: Stan Lee, James Mangold

Elenco: Hugh Jackman (Logan / Wolverine), Patrick Stewart (Charles Xavier / Professor X), Dafne Keen (Laura Kinney / X-23), Boyd Holbrook (Donald Pierce), Stephen Merchant (Caliban), Richard E. Grant (Dr. Zander Rice), Eriq La Salle (Will Munson), Elise Neal (Kathryn Munson).

Sinopse:
Em 2029, Logan (Hugh Jackman) ganha a vida como chofer de limousine, para cuidar do nonagenário Charles Xavier (Patrick Stewart). Debilitado fisicamente, esgotado emocionalmente, ele é procurado por Gabriela (Elizabeth Rodriguez), uma mexicana que precisa da ajuda do ex-X-Men. Ao mesmo tempo em que ele se recusa a voltar à ativa, Logan é confrontado por um mercenário, Donald Pierce (Boyd Holbrook), interessado na menina Laura Kinney / X-23, sob a guarda de Gabriela.

 

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