Os fantasmas de Almodóvar

Todos os filmes de Almodóvar, grande pasticheiro do melodrama, estão marcados pela tragédia plástica. Seguindo essa característica, Julieta é sobre a ausência, tema no qual já tocou muitas vezes em sua carreira, mas raramente havia se dedicado tanto unicamente a ele quanto agora. Abraços Partidos (2009) queria acertar contas com o passado, assim como Má Educação (2003) e Tudo Sobre Minha Mãe (1998) envolve a perda e o recomeço… E nenhum deles é o caso em Julieta.

Cineasta quase que exclusivamente dedicado a protagonistas femininas, Almodóvar filma as mulheres sempre padecendo em uma via crúcis resultante de seus relacionamentos com homens. Esse é um pano de fundo e preferência temática repetida aqui, na história da protagonista Julieta, professora de Literatura Clássica que conhece o futuro marido Xoan em um trem, onde um homem acabou de se matar atirando-se na frente do veículo. Esse evento marca profundamente Julieta, que aos vinte e cinco anos, parece experienciar a morte pela primeira vez na sua vida.

Protagonistas femininas de Almodóvar

Personagens femininos de Almodóvar

Contado em formato de memória, com o gatilho disparado quando a protagonista, já mais velha, encontra uma amiga da filha, o filme cerca todos os círculos em que ela frequente da perda, morte e fuga, constantemente tem que reinventar a própria vida, para sobreviver às intempéries que o destino coloca a sua frente.

Mais de trinta anos filmando, deram a Almodóvar um controle impecável sobre tudo que é ligado à mise-en-scène, sabendo onde posicionar a câmera, para que a mesma tenha o maior efeito dramático e na composição de seus planos, sempre carregado de cores berrantes, que trazem a emoção sempre à flor da pele de seus protagonistas, a todo momento prestes a explodir de raiva (quando toda a cenografia e figurinos se carregam de vermelho) ou capazes de cair na mais profunda das melancolias (quando a personagem é caracterizada em tons azuis).

As tragédias literalmente transfiguram Julieta – a troca das atrizes da mais nova pela mais velha é feita de maneira surpreendente e carregada de significado e Almodóvar, como sempre insistiu numa espécie de “caricatura séria” , exagerando as cores, as atuações e a narração. Até o desespero, a melancolia e a depressão ganham ares expansivos sob as lentes do cineasta espanhol, que pela terceira vez em sua carreira parece apontar em uma nova direção, longe do escracho da época de Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos (1988) e da fase mais séria e visceral, ainda que sem nunca perder o tom de exagero, como acontece em Fale Com Ela (2003) e Volver (2006). Desde A Pele Que Habito (2011), seu primeiro filme em uma nova década, parece ter aumentado ainda mais o flerte, a remodelagem ao nível do pastiche (encarado com paixão e seriedade, é claro) e a consciência dos alcances de seu estilo, seus limites e necessidades constantes de reinvenção para continuar atual.

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Protagonista do filme Julieta

Projeto com alguns anos de maturação, adaptado de três contos da canadense Alice Munro, vencedora do Nobel de Literatura em 2013, que se tornou famosa por refletir aspectos profundos da existência por meio de uma abordagem cotidiana, sendo por isso chamada por muitos de “a Tchekhov canadense”.

Guardadas as devidas proporções, é óbvio que de Tchekhov, o rei do minimalismo e da simplicidade na literatura para Almodóvar, o príncipe do excesso noventista, há um longo caminho percorrido. O escritor buscava o impacto nas miudezas, enquanto Almodóvar orquesta os pontos centrais de suas histórias com grandeza operística que só cinema, cores e perspectivas poderiam oferecer. Mas ambos compartilhavam o interesse pelo humano, seu lado ordinário, patético e nem um pouco heroico. Com essa humanidade com que enxerga seus personagens, que o cinema de Almodóvar transcendeu o mero estilo e a partir daí saiu com um cinema forte, único e sempre interessante, o que o transformou em um dos maiores ícones e referências do cinema mainstream das últimas três décadas.

Mais velho e mais maduro, visitando fantasmas e memórias ruins, Almodóvar de novo é ele mesmo e mais uma vez não é sempre o mesmo. O eterno provocador consolidou-se como um dos grandes contadores de história, convergindo suas referências à função de suas tragédias de todo dia. Há quem diga que Almodóvar pese a mão e imponha um estilo, o que podia ser até verdade mais no início, mas agora sua sofisticação narrativa é irresistível. Você quer assistir um filme do Almodóvar, afinal de contas as reviravoltas prometidas te deixam interessado, as cores e maneiras de enquadrar são poucas vezes oferecidas de maneira tão pessoal. Tudo isso em um constante exercício de reinvenção, em um filme consistente e sólido que, ainda que patine no ritmo em alguns momentos, mostra coma a prática o transformou em um dos grandes autores de cinema contemporâneo.

Ficha Técnica

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JULIETA 
Distribuidor/Produtora: Universal Pictures
Gênero: Drama
Classificação Etária: Não divulgada
Data de Lançamento: 07 de julho de 2016
Tempo de Duração: 1 h 339 min
Direção: Pedro Almodóvar
Roteiro: Pedro Almodóvar
Produtores: Agustín Almodóvar e Pedro Almodóvar
Diretor de Fotografia: Jean-Claude Larrieu
Montador: José Salcedo
Trilha Sonora: Alberto Iglesias
Elenco: Emma Suárez (Julieta aos 50 anos), Adriana Ugarte (Julieta aos 30 anos), Daniel Grao (Xoan), Inma Cuesta (Ava), Dario Grandinetti (Lorenzo), Michelle Jenner (Beatriz), Rossy de Palma (Marian), Blanca Parés (Antía).
SINOPSE: 
Dory vive feliz nos corais com Marlin e Nemo cerca de um ano após a aventura que mudou suas vidas. Quando Dory repentinamente se lembra de que tem uma família em algum lugar que pode estar procurando por ela, ela recruta Marlin e Nemo para uma aventura que vai mudar suas vidas cruzando o oceano em direção ao prestigioso Instituto da Vida Marinha (IVM) na Califórnia, um centro de reabilitação e aquário.

Crítica | Julieta
Roteiro
Direção
Elenco
Fotografia
Montagem
Cenografia e Figurino
4.0Pontuação geral
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