CRÍTICA | ELES SÓ USAM BLACK TIE
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‘VERDADEIRA OBRA DE ARTE’

A bastante tempo, o mundo do Cinema trata de assuntos considerados tabus na sociedade com leveza e romantismo. Na maioria deles, a mensagem é passada, mas, geralmente, confusa e escondida atrás do roteiro e do contexto do filme ou, simplesmente, tratado de uma forma indevida.  Racismo, machismo, questões de gêneros, drogas e tudo que divide a sociedade deveriam ser tratados com mais frieza e seriedade, sem pensar no lucro da bilheteria, ou em um possível Oscar, saindo do circuito comercial de Hollywood.

E é justamente essa a proposta do novo filme do diretor, roteirista e ator Sul Africano Sibs Shongwe-La Mer, denominado Eles só usam Black Tie( Necktie Youth). Com uma roupagem totalmente diferente das produções comerciais que costumam lotar as salas de cinema por todo o mundo, a produção apresenta esses assuntos polêmicos de uma forma mais crua e real, com um roteiro mais orgânico e  parecido com a vida de quem sofre com essas mazelas da sociedade.

Fotografia é característica técnica que mais difere e inova, exibindo o filme preto e branco em sua totalidade e com imagens em close.

Ambientado todo em Joanesburgo, a capital da África do Sul, o filme conta a história de um grupo de amigos que, foram criados juntos na infância e que, ao alcançarem a juventude, tentam lidar com questões como drogas, álcool, depressão e a ansiedade inerente a esta idade. Todo esse quadro é agravado, depois que uma das jovens comete suicídio e transmite ao vivo para todos os seus amigos. Esse ocorrido é encarado por cada jovem de forma pessoal e diferente, levando a reflexão sobre a linha tênue entre a vida e a morte, na tentativa de descobrir o que levou a jovem a cometer o suicídio e de que forma essa tragédia poderia ser evitada.

A produção é uma verdadeira obra de arte na qual não estamos acostumados a ver nos cinemas e nem nos grandes circuitos mundiais. Sua Fotografia é característica técnica que mais difere e inova, exibindo o filme preto e branco em sua totalidade e com imagens em close, apresentando uma África do Sul e uma Joanesburgo ainda não descoberta.

Verdadeira obra de arte na qual não estamos acostumados a ver nos cinemas e nem nos grandes circuitos mundiais.

Outros aspectos, como o elenco e a atuação, colaboram para que a produção seja tão orgânica e pessoal, com características do país e da região. Todos principiantes e na sua maioria negros, os atores Bonko Khoza, Colleen Balchin, Emma Tollman, Giovanna Winetzki, Jonathan Young, Kamogelo Moloi, Kelly Bates, Ricci-Lee Kalish e Sibs Shongwe-La Mer conseguem expressar nos olhos todas as angustias dos seus personagens, em um contexto denso e uma realidade crua e dura.

A direção fica por responsabilidade de Sibs Shongwe-La Mer, que também completa o elenco e assina a produção. Dentro do que se propôs, conseguiu um resultado final com excelência e competência, despertando no público variados sentimentos, desde o espanto até a risada, chocando com elegância e com arte. Com cortes e diálogos curtos e rápidos, cenas dramáticas e as vezes silenciosas, a direção faz uma homenagem a África do Sul, a seus moradores e a caminhada política que todo o continente africano vem travando, tentando a sua liberdade.

A produção fica ainda mais marcantes com trilha sonora, que combinado com o aspecto preto e branco, se resume em mais um personagem em cena, se tornando essencial para o valor e objetivo da obra, mesmo a trilha sendo toda instrumental. Apesar de todos os elementos se somarem de forma equilibrada, contribuindo para o filme, é o roteiro que faz a diferença, com sua mensagem que deveria ser assunto superados, mas que, infelizmente, não conseguimos resolver ainda.

Depressão é o argumento do enredo, levando a várias consequências como o suicídio, o alcoolismo e o uso excessivo das drogas.

A depressão é o argumento do enredo, levando a várias consequências como o suicídio, o alcoolismo e o uso excessivo das drogas. A grande mensagem que podemos absorver é como estamos tratando erradamente esses temas, com pouca importância e atenção, ainda mais em tempos que essas questões são agravadas com o individualismo e o “exemplo a ser seguido” em que a tecnologia impõem. Ao mesmo tempo que estamos ligados ao mundo todo, estamos nos sentindo cada vez mais sozinhos e abandonados,  levando muitos jovens a se submeter a esses problemas.

O mais interessante também, é perceber como esse contexto é inserido e tratado em uma cultura Oriental e em um país em que o racismo ainda é bem forte e que carrega estilo de vida bem diferente do qual estamos acostumados, sendo muitas vezes julgados como errado. Além de ser mais um passo para o crescimento do cinema, pode ser considerado um serviço público a todos aqueles que por algum motivo, estão passando por esses mesmos problemas e um alerta à sociedade para que esses jovens não passem mais desapercebidos.

Não espere um filme comercial, com atores famosos, uma grande produção e uma trilha sonora com nomes conhecidos, mas sim um filme independente, totalmente reflexível e sensível, com uma mensagem de máxima importância. Essencial para aumentar o conhecimento de cinema e de mundo. A princípio, Eles só usam Black Tie não diz muita coisa, mas é um daqueles filmes que nos orgulham de sermos fãs de cinema e nos alerta para darmos a devida  atenção para o que está sendo produzido fora do mundo hollywoodiano, principalmente nos outros países.

Ficha Técnica


ELES SÓ USAM BLACK TIE (Necktie Youth)
Distribuidor:Fênix Filmes
Gênero: Drama
Classificação etária:
Data de Lançamento: 09 de Março de 2017
Tempo de Duração: 1h 26 min
Direção: Sibs Shongwe-La Mer
Roteiro: Sibs Shongwe-La Mer
Produção: Elias Ribeiro, John Trengove
Trilha Sonora: Marco Beltrami
Produção: Hutch Parker, Lauren Shuler Donner, Simon Kinberg
Montador Chefe: Sibs Shongwe-La Mer
Efeitos Visuais: John Berrie
Produtor Executivo: Stan Lee, James Mangold

Elenco: Bonko Khoza (Jabz), Colleen Balchin (Tanya), Emma Tollman, Giovanna Winetzki, Jonathan Young, Kamogelo Moloi (Bogosi), Kelly Bates, Ricci-Lee Kalish e Sibs shongwe-La Mer (September).

Sinopse:
Um ano após o sombrio suicídio de uma menina misteriosamente transmitido ao vivo na internet, um grupo de jovens ricos vive, em Joanesburgo, em busca de respostas, drogas, distração e salvação. A tragédia os obriga a reavaliar suas próprias vidas e debater assuntos como raça, política e sexualidade.

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