A Pluridade Individual

Apenas um ano depois do premiado “Que horas ela volta?”, Anna Muylaert nos apresenta seu novo filme, mostrando que não falta talento em nossa terrinha, mas visibilidade. Para compor mais esse retrato do Brasil, país formado de uma galeria inteira de fotos diversas, Muylaert sai de dentro da casa dos patrões e corre direto para as manchetes policiais. Como a diretora do longa já fez anteriormente, essa nova dupla de filmes conversam quando o assunto é maternidade. Dessa maneira, a diretora aborda não só conflitos, mas afetos e solidão. A história de “Mãe só há uma” é livremente inspirada no enredo do Caso Pedrinho, menino sequestrado ainda na maternidade por Vilma Martins em 1986, sendo criado como filho da sequestradora até a revelação do crime dezessete anos depois, quando o já adolescente retorna à família biológica.

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História livremente inspirada no caso Pedrinho

Na história, Pierre (Naomi Nero), assim como Pedrinho, cresce com a mãe-sequestradora Aracy (Dani Nefussi) em bairro de classe baixa em São Paulo. De maneira abrupta, é relevado que seu nome jamais foi Pierre, mas Felipe e sua mãe jamais foi Aracy, mas Glória (irreconhecivelmente interpretada também pela atriz Dani Nefussi). A partir desse ponto, o filme entra na ficção narrativa, mas sendo atualizado de uma forma que só um filme feito em um período tão curto pode se tornar.

Até o momento, Pierre/Felipe encara um fim de infância comum, onde a sexualidade sofre tentativas de externalização e, consequentemente, repressões vindas de si mesmo e da sociedade, exceto nas noites de balada que frequenta. Assim como a passagem da adolescência para a vida adulta, as mudanças que Pierre/Felipe sofre são complicadas, por vezes atônitas, mas sempre caóticas.

A palavra que caminha com Pierre/Felipe durante sua descoberta é a pluralidade. As cenas de transição e encontro consigo mesmo ocorrem precisamente em banheiros, dando a impressão verdadeira de que cada um vive sua própria experiência de vida, jamais podendo ser compartilhada com qualquer outro, no sentido de que suas sensações e internalizações são subjetivas, porém, ironicamente, a sexualidade sempre envolverá outras pessoas, especialmente a mãe.

Pierre/Felipe em cena

Personagem Pierre/Felipe em cena

Brincando com o nome do filme e com a escolha da mesma atriz para o papel das duas mães, a questão é se Pierre teria chances de evitar ser Felipe ou se Aracy algum dia foi embora da vida irreversível do filho, destinado a ser o que é dentro de todas as camadas que carregou até então. A maternidade nunca vai embora de quem passou por ela, seja como filho, mãe, pai ou irmão.

A inteligência das escolhas da direção não param por aí. O elenco é um primor em praticamente todos os seus desdobramentos. Todos, ainda que vivendo uma família, parecem estar sozinhos em seus próprios mundos de sentimentos. Destaque especial a Daniel Botelho, que interpreta o carente e essencial – talvez o melhor personagem do filme – Joca, e a Matheus Nachtergale, que ao encarnar Matheus, o pai à flor da pele, mais uma vez mostra que como é versátil e carismático.

Matheus Nastergale é Matheus na história

Matheus Nachtergale é Matheus na história

Não há construção (ou desconstrução) da sexualidade e dos valores morais pré-estabelecidos sem desconforto, dessa forma, o enquadramento utilizado pela diretora sempre foca nos desconfortáveis, naqueles que estão deslocados, os que estão sendo tirados de seus pontos de conforto sem que tenham pedido por isso. A “câmera do desconforto” fica evidenciada principalmente no jantar de encontro entre Pierre/Felipe e a nova família. No geral, o desconfortável é quem encara a mudança mais drástica, nesse caso, Pierre e os novos pais, como na cena do boliche.

Se para que todos esses aspectos de nossa (sim, nossa) intimidade sentimental sejam revelados foi preciso o uso de meia dúzia de personagens à beira da caricatura (Pierre, o garoto afeminado, rockstar de garagem, baladeiro e que provoca a família; Glória como a mãe afetada pela indiferença do filho e desesperada por atenção ao ponto de ser uma narcisista latente; Matheus como o macho agressivo e repressor), não há uma só culpa a ser atribuída. Talvez sejamos todos caricaturas de meia dúzia de tipos de pessoas que circulam pela sociedade da classe média brasileira.

Pierre é um garoto afeminado, baladeiro e que provoca a família

Pierre construindo sua identidade

Tivemos boa sorte em dar voz ao talento de nossa contadora de história que não torna conflitos típicos adolescentes em dramalhões desenfreados. Os alívios cômicos, impagáveis e memoráveis, fazem arte da segunda característica mais importante do filme: o frescor. Rápido, forte, impactante e preciso. Aparentemente confuso, mas estritamente direcionado. Com menos de uma hora e meia, o filme é jovem em sua estrutura e forma. Intencionalmente o retrato de uma geração. Há muito que falar sobre tudo o que está acontecendo daqui para frente.

Ficha Técnica

ROSA_Oficial_MSHU_fcbk MÃE SÓ HÁ UMA
Distribuidor/ Produtora: Vitrine Filmes
Gênero: Drama
Classificação Etária: 16 anos
Data de Lançamento: 21 de Agosto de 2016
Tempo de Duração: 82 minutos
Direção: Anna Muylaert
Roteiro: Anna Muylaert
Produtores: Anna Muylaert, Sara Silveira
Fotografia: Bárbara Álvarez
Elenco: Daniel Botelho, Daniela Nefussi, Helena Albergaria, June Dantas, Lais Dias, Luciana Paes, Luciano Bortoluzzi, Matheus Nachtergaele, Naomi Nero, Renan Tenca

Sinopse
Após denúncia anônima, o adolescente Pierre é obrigado a fazer um teste de DNA. Ele descobre que foi roubado da maternidade e que a mulher que o criou não é sua mãe biológica. Após a revelação o garoto é obrigado a trocar de família, de nome, de casa, de escola, tudo isso em meio às descobertas da juventude.

CRÍTICA | MÃE SÓ HÁ UMA
Direção
Roteiro
Elenco
Fotografia
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