CRÍTICA | CINQUENTA TONS MAIS ESCUROS
Direção
Roteiro
Enredo
Elenco
Montagem
0.8Pontuação geral
Avaliação do leitor: (0 Votos)

‘UMA ROUPAGEM MUITO QUENTE, MAS COM UM CONTEÚDO MORNO, QUASE FRIO’

Mais um encontro com o casal que promete esquentar as salas de cinema e já impregnou a imaginação de muita gente com os livros de E.L. James. Dessa vez, a adaptação é Cinquenta Tons Mais Escuros, continuação de Cinquenta Tons de Cinza, lançado em 2015. O longa promete aprofundar a história e revelar um pouco sobre o passado do sádico, ricaço e cobiçado Christian Grey.

O filme dispara diversas tentativas de convencer como um soft porn refinado, ser dramático, romântico e balbucia cenas de suspense que parecem um reflexo turvo de filmes do gênero thriller erótico, como, Instinto Selvagem (1992) e Corpo em Evidência (1993), mas nenhuma das tentativas decola, pelo contrário, essas inserções afundam no roteiro confuso, mas nem tudo está perdido. Um gênero que funciona bem na produção é a comédia, pois, como no primeiro longa os risos da plateia estão presentes, mas não pela genialidade de um roteiro sarcástico, pelo contrário. Os risos involuntários escapam nas cenas bizarras e das situações irreais.

Principais responsáveis por darem vida aos diálogos são Dakota Johnson e Jamie Dornan.

O roteirista dessa vez é Niall Leonard, que não possui nenhum trabalho de destaque, mas é marido da autora da trilogia de livros da saga. O material apresentado é sofrível e os diálogos são de credibilidade nula parecendo que foram tirados de algum filme independente de mau gosto dos anos 90. O resultado final é uma obra cheia de pontas soltas, lacunas nas explicações propostas e desenvolvimento irregular.

Os principais responsáveis por darem vida aos diálogos são Dakota Johnson e Jamie Dornan, que reprisam seus papéis como o casal protagonista Anastasia Steele e Christian Grey. A química entre eles continua da mesma forma do que foi apresentado anteriormente, ou seja, inexistente e quase desconfortável de assistir. A atuação de Jamie segue essa linha e é incômoda. Lhe falta versatilidade ao encarnar o personagem que deveria expressar um grande conflito interno e traduzi-lo nos jogos sexuais, mas tudo o que se vê são feições forçadas numa tentativa de emocionar e/ou seduzir ao público. Seu desempenho no filme destaca seu forte: ser modelo. Como se não bastasse, para infelicidade de muitos fãs o corpo dele não é tão explorado quanto antes empobrecendo ainda mais o seu desempenho.

Kim Basinger dá vida a Elena Lincoln / Mrs. Robinson, mas sua presença parece um grande elefante branco.

Em contrapartida, percebe-se uma evolução na atuação de Dakota, principalmente em sua sequência inicial, onde a atriz não contracena com Jamie, mas no momento que se estampa na tela as tentativas de romance e erotismo do casal, tudo vai por água a baixo. Para confundir ainda mais, o filme entope a mente do espectador de personagens e todos eles se desdobram em clichês, principalmente a família de Christian que cada vez cresce mais com personas descartáveis e caricatas que são usadas em falas pontuais que em nada acrescentam.

A atriz Kim Basinger (Batman, 1989) dá vida a Elena Lincoln / Mrs. Robinson, mas sua presença parece um grande elefante branco. A personagem, responsável por introduzir Grey na vida sexual e lhe apresentar jogos de submissão, soa vazia e seu desfecho é completamente insatisfatório. O desenrolar dela na trama se resume a duas cenas com o objetivo de retratar o dilema do protagonista de abrir mão do S&M e viver seu amor com Ana ou manter o Quarto Vermelho e seus brinquedos em pleno uso.

Em questões técnicas o filme não inova e nem cabe esse recurso, mas toda a estética corre para os braços do óbvio e fica por lá mesmo, além de puxar e usufruir um pouco mais o que deu certo no primeiro filme. A trilha sonora, que no na produção de 2015 se destacou com canções originais ou versões exclusivas que hitaram, não tem o mesmo efeito dessa vez. As músicas incidentais continuam na responsabilidade do incrível Danny Elfman, que possui diversos trabalhos de peso, como, Edward Mãos de Tesoura (1990), mas dessa vez parece que tudo caminha na mesma direção culminado em um resultado medíocre.

Percebe-se uma evolução na atuação de Dakota, principalmente em sua sequência inicial, onde a atriz não contracena com Jamie.

Mas a trilha sonora pouco envolvente certamente não é o maior problema da direção de James Foley (Quem É Essa Garota?, 1987). O diretor se destaca no comando de séries, como, House of Cards, onde já dirigiu 12 episódios, mas aqui não conseguiu criar um ritmo legal. A receita para o desastre já estava pronta: roteiro ruim, atuações medianas, mas a direção empurra de vez tudo ladeira a baixo com um trabalho fraco e visualmente pobre embasado na repetição de estereótipos.

Curioso, por assim dizer, a decisão do diretor em “recriar” um pouco do primeiro filme e conseguiu ser ainda mais desastroso. Cenas desconexas que foram inseridas apenas para alavancar a venda de singles de canções presentes no filme continuam lá. Fora os cortes e enquadramentos com um ar novelesco e semiprofissional, principalmente pelo grande número de erros de continuidade e do uso exagerado de closes e da passagem de tempo confusa.

Apenas uma coisa é clara em 50 Tons Mais Escuros: a tentativa de repetir o sucesso de arrecadação do seu antecessor. Nos resta esperar até o ano que vem para ver o desfecho dessa história, mas por enquanto temos que nos contentar com um filme com uma roupagem muito quente, mas com um conteúdo morno, quase frio.

Ficha Técnica

CINQUENTA TONS MAIS ESCUROS (Fifty Shades Of Grey 2: Fifty Shades Darker)
Distribuidor: Universal Pictures
Gênero: Romance, Drama, Erótico
Classificação Etária: 16 anos
Data de Lançamento:  09 de fevereiro de 2017
Tempo de Duração: 1 h e 58 minutos
Direção: James Foley
Roteirista: Niall Leonard
Diretor de Fotografia: John Schwartzman
Montador: Richard Francis-Bruce
Produção:Dana Brunetti, Mike De Luca, E.L. James
Trilha Sonora: Danny Elfman

Elenco: Dakota Johnson (Anastasia Steele), Jamie Dornan (Christian Grey), Bella Heathcote (Leila Williams), Kim Basinger (Elena Lincoln), Eric Johnson (Jack Hyde), Hugh Dancy (Dr. John Flynn), Marcia Gay Harden (Grace Trevelyan Grey), Eloise Mumford (Kate Kavanagh).

Sinopse:
Incomodada com os hábitos e atitudes de Christian Grey (Jamie Dornan), Anastasia (Dakota Johnson) decide terminar o relacionamento e focar no desenvolvimento de sua carreira. Ele, no entanto, não desiste tão fácil e fica sempre ao seu encalço, insistindo que aceita as regras dela. Tal cortejo acaba funcionando e ela reinicia o relacionamento com o jovem milionário, sendo que, aos poucos, passa a compreender melhor os jogos sexuais que ele tanto aprecia.

 

Comentários

comentários