‘INVENTAR-TE-IA ANTES QUE OS OUTROS TE TRANSFORMEM NUM MAL-ENTENDIDO’

O Brasil vive, há décadas, uma relação de amor e ódio consigo mesmo. Com a arte – nesse caso, a sétima –, a ideia de amar a si mesmo ora parece distante, ora parece o único caminho para nossa própria redenção. É da perspectiva de salvação que se delineou o movimento Cinema Novo em meados dos anos 50 até o começo da década de 70, em meio a ditadura militar. A salvação da imagem da realidade com o objetivo de ser um recorte crítico político-social de uma época sufocada e, posteriormente, fragmentada de novo.

Em tempo de ebulição política, o filme-ensaio Cinema Novo (2016), de Eryk Rocha, dialoga principalmente com a atualidade em todas suas dimensões, seja da nossa ou da época de seus arquivos, especialmente ao resgatar o grupo pensante cinemanovista como o que de fato era: um grupo. O documentário é uma seleção de material extenso com depoimentos dos fundadores do movimento falando sobre ele, interagindo e narrando a história formada por Leon Hirszman, Nelson Pereira dos Santos, Cacá Diegues, Rogério Sganzerla, Roberto Santos, Ruy Guerra e Glauber Rocha, pai de Eryk, e muito outros, como o tardio ingressante Arnaldo Jabour. Na obra de Rocha, o grupo fala por si próprio, em unidade, até onde consegue, quando a ditadura os separa e delimita também sua construção.

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Entender as nuances do Cinema Novo vai além das notícias frias e as páginas de história

Primeiramente, é preciso avaliar a situação em que o documentário está inserido: com os recentes sucessos internacionais de diretores como Kleber Mendonça Filho e Anna Muylaert exatamente valorizando a ficção realista, ainda que em um contexto mais suburbano e menos empobrecido, o valor de um filme como o de Rocha se dá no estudo do nosso passado – sim, nós temos um passado e ele é lindo. A relevância dos filmes da época vai além de um simples discurso com fim educativo, vivemos nossa arte baseada em nos retratar cotidianamente, como uma necessidade de expressão, como registro do que somos. Talvez sejamos tão múltiplos que podemos ter diversos movimentos chamados “novos”. Agora, chamamos a recente leva de “Novíssimo Cinema Brasileiro”, e com toda razão.

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Uma câmera na mão e uma ideia na cabeça

Ainda dentro do contexto do nosso cenário, o diretor revela a autocrítica ao mostrar que jovens cultos (viagens ao exterior, ensino de línguas, técnicas cinematográficas) queriam mostrar a humildade e a dureza do sofrimento do sertão, uma cultura que não lhes pertence. Não teria como ser diferente: é o movimento de quem domina a técnica em direção à área a ser mostrada, contanto com baixos orçamentos, uma câmera na mão e uma ideia na cabeça. Cinema Novo se mostra uma homenagem ao cinema nacional como um álbum de fotografias sem legenda.

O reconhecimento internacional vem em forma de prêmios dos que reveem nossa produção com olhar de entendimento especializado e sociológico. A falta de didatismo presente em Rocha jamais irá incomodar quem se sente tocado por todas as cenas das obras expostas. De fato, é essa lacuna que torna o filme mais precioso e universal. Entender as nuances do Cinema Novo vai além das notícias frias e as páginas de história. Se a intenção inicial é ser ouvido por quem sabe precisar falar, então que os donos do movimento falem de si e do que fizeram, mas também do que foi feito com eles e, consequentemente, com nossa arte/retrato.

Fiha Técnica

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CINEMA NOVO
Distribuidor/ Produtora: Vitrine Filmes
Gênero: Documentário
Classificação Etária: Livre
Data de Lançamento: 03 de Novembro de 2016
Tempo de Duração: 1h 30min
Direção: Erik Rocha
Roteiro: Erik Rocha
Montagem: Renato Valone
Produtor: Diogo Dahl
Co-produtor: José Fernando Muniz
Desenho Sonoro: Edson Secco

Sinopse

Um ensaio poético, um olhar aprofundado e um retrato íntimo sobre o Cinema Novo, movimento cinematográfico brasileiro que colocou o Brasil no mapa do cinema mundial, lançou grandes diretores (como Glauber Rocha, Nelson Pereira dos Santos e Cacá Diegues) e criou uma estética única, essencial e visceral que mudou a história do cinema e a história do Brasil para sempre.

CRÍTICA | CINEMA NOVO
Direção
Roteiro
Montagem
Desenho Sonoro
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