A hora e a vez do palhaço

No final do século XIX, a França vivia uma explosão de avanços na classe burguesa. Avanços econômicos, técnicos e científicos fizeram a chamada Belle Époque parecer o cenário ideal para a prosperidade, porém, o mesmo cenário deu margem para o florescimento da eugenia. Se hoje parece absurdo, no auge das teorias evolucionistas parecia normal segregar e rotular como raça inferior quem era negro. Teorias aceitas e propagadas, dando origem à destruição mais horrível ocorrida no século XX. Sensibilizado, o diretor Roschdy Zem escolheu retratar a visão de uma geração segregacionista apoiada pela ciência da época através do doce palhaço Chocolate, primeiro palhaço negro da vida circense francesa.

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Chocolate, primeiro palhaço negro da vida circense francesa.

É inegável que Omar Sy (ator de Intocáveis, Jurassic World e Samba) atua bem na pele do artista circense Rafael Padilla/Chocolat, o primeiro negro palhaço da França, que é convidado por George Footit (James Thierrée) a compor a primeira dupla circense com um palhaço branco e um negro. Esse enredo por si só levanta consigo discussões polêmicas, que o diretor soube trabalhar de forma inteligente, conseguindo debater questões como o racismo, – assunto extremamente sensível na França, devido ao seu recente passado colonial ainda hoje mal resolvido -, sem vitimizar ou fragilizar nenhum dos personagens exclusivamente. Não se busca julgar ou adjetivar nenhum dos personagens. São todos ali demasiadamente humanos e, por isso, profundos.

O filme é uma cinebiografia que não se limita a narrar à história de Padilla. Pelo contrário, o espectador imerge junto com o personagem principal no seu processo de ascensão social e de evolução pessoal, com o roteiro apoiado na relação de comparação com Footit, seja por posição social ou experiência/inexperiência. Desde o inicio de sua carreira circense, retratado como um canibal africano num circo itinerante na periferia da Cidade Luz, até sua ascensão como membro da dupla de clowns mais festejada de Paris e sua posterior mudança para o primeiro ator negro a interpretar Otelo, “o único papel de Shakespeare para um negro”, a partir de um equilíbrio fino entre cenas leves e densas.

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Rafael Padilla/Chocolat foi  o primeiro ator negro a interpretar Otelo

A direção, montagem e produção são dignas de nota. As reconstruções de época em cada cena são extremamente bem feitas e realmente remetem à Paris dos anos 1900, em especial as cenas externas que aproveitam muito bem a arquitetura parisiense que se manteve até hoje. É esteticamente agradável, com figurinos bem elaborados e um jogo de claro-escuro que paira sobre Padilla, à medida que ele repensa seu papel como artista e como ser humano capaz e indefeso.

A película não só retrata a vida de um dos mais relevantes nomes da arte da palhaçaria, como promove um debate que se manteve extremamente atual, tanto na França quanto no resto do mundo, em que pese à virada de século. E muito embora possa traçar paralelos com a questão da imigração na França e dos diversos tipos de preconceitos sociais ao redor do mundo, talvez o ponto mais relevante seja que, em que pese toda a contribuição de Padilla para as artes cênicas. Seu trabalho só veio a ter a projeção merecida após quase 100 anos de sua morte, reflexo de um racismo que abafou e até hoje a voz do palhaço e de tantos outros artistas relevantes.

Ficha Técnica

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Distribuidor/ Produtora: California Filmes
Gênero: Drama
Classificação Etária: 14 anos
Data de Lançamento:  21 de Julho de 2016
Tempo de Duração: 110 minutos
Direção: Roschdy Zem
Roteiro: Cyril Gely, Gérard Noiriel, Olivier Gorce e Roschdy Zem
Trilha Sonora: Ryan Miller

Elenco:
Omar Sy, James Thiérrée, Clotilde Hesme, Olivier Gourmet, Frédéric Pierrot, Noémie Lvovsky, Alice de Lencquesaing, Alex Descas, Olivier Rabourdin, Xavier Beauvois

Sinopse:

Rafel Padilha foi vendido quando ainda criança. Anos depois, quando consegue fugir, é encontrado por um palhaço que o inclui em seu espetáculo. Assumindo o nome de Chocolat, torna-se o primeiro artista circense negro da França.

CRÍTICA | CHOCOLATE
Direção
Roteiro
Elenco
Fotografia
Direção de Arte
3.5Pontuação geral
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