CRÍTICA | CARTAS DA GUERRA
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‘O AMOR É VISIVELMENTE MAIS FORTE QUE UM TANQUE DE GUERRA’ 

O filme português Cartas da Guerra, traz à lembrança, que não é tão distante assim, a luta colonial portuguesa abordada de forma diferente. Vista sobre olhares confusos de soldados que desacreditavam a necessidade de um conflito tão doloroso e injusto, em meio a tentativa de achar algo para se apegar e lutar por sobrevivência. Baseado no livro D’este Viver Aqui Neste Papel Descripto (Cartas da Guerra, no Brasil), do escritor Antônio Lobo Antunes, o terceiro longa do diretor Ivo Ferreira trata de histórias de amor, aflição, desespero, medo, amadurecimento político e o início de um dos escritores mais aclamados de Portugal.

Antônio (Miguel Nunes) é um médico jovem e recém-casado, que deixa a esposa grávida e é enviado a serviço do exército para a guerra na Angola entre 1971 e 1973. Como uma forma de se sentir próximo de sua amada, ele escreve cartas diariamente, onde visualiza a esposa em seus pensamentos e se apega a isso para conseguir enfrentar tudo que passa em um campo de batalha cruel. Ele vê seus companheiros passarem pela mesma situação a fim de achar um refúgio para sobrevivência. Entre emboscadas, torturas, matanças e angústias, ele vê beleza em um país desconhecido com costumes e culturas diferentes e relata tudo a Maria (Margarida Vila-Nova), por quem mostra um grande amor entre intimidades trocadas nas cartas. Com toda a experiência que ganha da pior forma, ele se vê uma pessoa diferente e escreve seu primeiro romance.

Com ótimas atuações, a maioria dos rostos são pouco conhecidos no Brasil. Um deles bem familiar é Ricardo Pereira, que já atuou em várias novelas brasileiras, atualmente em Novo Mundo. Na pele do major, ele mostra um dos lados mais bem feitos de sua carreira, surpreende na cena em que não aguenta mais estar na guerra e tenta achar uma saída entre toda aquela violência. É difícil mencionar um ator que tenha se destacado, quando há várias atuações muito boas e que passam o sentimento vivido naquele campo de guerra. Movidos pelo amor, cada personagem tem  suas peculiaridades para lidar com as mesmas situações na guerra, mas Miguel Nunes pode ter seu destaque ao evoluir em fases no decorrer do filme, de um homem apaixonado, inseguro sobre a volta para casa, encantado com a cultura africana, deprimido ao tentar suportar todo aquele caos e distraído ao viajar nos pensamentos enquanto escreve seu primeiro livro. Ele passa junto ao público todas as emoções que vive no longa.

O preto e branco no filme foi uma boa escolha em um cenário de guerra. Além de deixar mais dramático, passa uma sensação de igualdade entre eles e uma falta coletiva, como uma ausência de alguém que ama, mas vive de forma intangível nas cartas e pensamentos. As doses de humor nas cenas são pontuais e dão leveza no roteiro, mas não tiram a seriedade do conflito. Há também questões políticas, em que os personagens vão ganhando uma consciência de que aquela guerra não tem sentido coerente, e provoca um esgotamento mental na cabeça dos combatentes. É usado a voz-off, no qual Maria, a destinatária de Antônio, lê as cartas do marido durante o filme. Às vezes fica confuso, pois ele também lê as cartas, e pode parecer que é escrita por ela, mas não, todas são cartas de Antônio. Este fato não tira o encantamento das palavras doces do jovem médico, no qual logo percebe-se que o discurso é dele.

Tem algumas partes do filme que vemos uma linguagem distinta entre Antônio e sua amada, assim como gírias africanas que poderia ter sido trocado por algo mais familiar ou traduzido, mas nada que tire o brilho da história. Percebe-se a evolução do médico como escritor, além do seu romantismo sentido nas palavras não só pela amada, mas também pelas belezas que encontra nos caminhos que passa.

Com exibição no Festival de Berlim, vale a pena ver o filme. Dá pra entender a realidade em que os soldados vivem na guerra, não só com tiroteio, bombas e mortes, mas também como a cabeça deles ficam. As emoções, sentimentos e no que eles se seguram para tirar forças na esperança de voltar para casa. O amor é visivelmente mais forte que um tanque de guerra.

Ficha Técnica


CARTAS DE GUERRA
Distribuidor: Imovision
Gênero: Drama
Classificação Etária: 14 anos
Data de Lançamento: 13 de julho de 2017
Tempo de Duração: 1h 44min
Direção: Melissa James
Produção: Luís Urbano e Sandro Aguilar
Co-produção: Georges Schoucair e Michel Merkt

Elenco: Miguel Nunes(Antônio), Margarida Vila-Nova (Maria José), Ricardo Pereira (Major M.), João Pedro Vaz (capitão), Simão Cayatte (Alferes Eleutério), Isac Graça (Cabo Hilário), Francisco Hestnes Ferreira (Cabo Carica), João Pedro Mamede (Alferes Professor), Tiago Aldeia (Soldado Ferreira), Orlando Sérgio (Catolo).

Sinopse: Em 1971, António vê a sua vida brutalmente interrompida quando é enviado, pelo exército português, para servir como médico numa das piores zonas da Guerra Colonial – o Leste de Angola. Longe de tudo que ama, escreve cartas à mulher à medida que se afunda num cenário de crescente violência. Enquanto percorre diversos alojamentos, se apaixona pela África e amadurece politicamente. A seu lado, uma geração desespera pelo regresso. Na incerteza dos acontecimentos de guerra, apenas as cartas o podem fazer sobreviver.

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