CRÍTICA | ATÉ O ÚLTIMO HOMEM
Direção
Roteiro
Elenco
Fotografia
Montagem
Enredo
4.2Pontuação geral
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‘ARMADO APENAS POR SUA FÉ’

Filme que retrate a Segunda Guerra Mundial não é novidade na história do cinema. Hollywood apresentou ótimas e variadas produções que vão desde O Grande Ditador (1940) a O Resgate do Soldado Ryan (1998). Mas, com seis indicações ao Oscar, Até o Último Homem tem uma representatividade marcante, o retorno de Mel Gibson (Paixão de Cristo, 2004), após anos na geladeira por envolvimento em polêmicas, ao cenário da mais popular premiação do cinema.

Até o Último Homem é baseado na história real do adventista Desmond Doss (Andrew Garfield), que vive com seus pais e o seu irmão em Lynchburg, Virgínia. Desmond vivencia dias de violência doméstica praticada por seu pai, Tom Doss (Hugo Weaving), veterano condecorado e fortemente traumatizado em combate, contra sua mãe Bertha Doss  (Rachel Griffiths)Chegada a Segunda Guerra, Doss vê o seu irmão Harold Doss (Nathaniel Buzolic) alistado e a caminho do Exército. Muito mexido e vendo amigos indo servir ao Exército na Guerra, Desmond decide se alistar para servir como médico, mas tem um detalhe. Ele não aceita pegar em arma e tem a forte convicção de não matar, mas apenas salvar vidas, o que causa um grande problema em sua companhia militar. As tentativas são inúmeras, para fazer com que desista, mas persistente resiste e vai à batalha armado apenas por sua Bíblia.

Romance bonito e dramático de Dorothy e Desmond.

Até que ponto você não corromperia suas convicções para se adequar ao todo? Em uma sociedade em que um indivíduo é obrigado a se encaixar em um grupo e acaba traindo suas convicções, traindo quem realmente é, na trama assistimos uma forte defesa das convicções não só religiosas, mas de carácter do personagem principal contra um sistema implantado indiscutivelmente. Apresentando assim, um enredo que representa o isolamento de seu protagonista, que vai além de ser simplesmente um filme de guerra, mas um filme de defesa de valores, defesa da fé de um homem, bem característicos do cinema de Mel Gibson. E aqui o roteiro de Robert Schenkkan (Spartacus, 2004) Andrew Knight (Promessas de Guerra, 2014) consegue de forma equilibrada embasar toda a narrativa, mesmo que por momentos use clichês descontextualizados. É utilizada a estrutura circular, que termina no ponto de início da história e o roteiro utiliza saltos de passagens de tempo muito próximos, que causaram um pouco de estranheza (talvez um deslize da direção), e se apresenta de forma desnecessária, mas nada que cause dano a todo o contexto. Agora, algo que  roteiro erra é ignorar por completo o destino do irmão de Desmond que é importante na formação e virada do personagem, mas que depois é simplesmente esquecido na história.

Andrew Garfield consegue captar a essência do personagem, que tem um tom de ingenuidade e ao mesmo tempo uma segurança inacreditáveis.

O diretor Mel Gibson (Paixão de Cristo, 2004) está se tornando um especialista em filmes que falam de fé e sua direção seguiu bem a proposta dessa produção cinematográfica. Consegue aliar bem a fotografia e os planos de forma que o personagem Doss fosse retratado como um tipo de cristo em meio ao caos da Guerra. Na primeira parte do filme, a direção foi um pouco arrastada, mas na segunda parte, no auge do clímax, Gibson consegue demonstrar o seu talento com cenas de ação e retrata de forma realista a batalha sangrenta de Okinawa. O diretor não tem o menor pudor de causar desconforto para quem assiste, e em conjunto com o diretor de fotografia Simon Duggan (300 – A Ascensão Do Império, 2014), transmite as cenas de ação de forma clara, bem violentas, em momentos únicos e com a boa montagem de John Gilbert (Os Especialistas, 2001), em sequências de tirar o fôlego. Ainda utiliza o recurso de entrevistas com os personagens reais da obra que embasam ainda mais as atuações do longa e finaliza com tom documental.

Conhecido por ser um ator de comédias, Vince Vaughn interpreta o sargento Howell, que é um personagem mais tenso, mas que foi de uma atuação muito sólida.

O equilíbrio e a variedade de tipos de personagens são presentes em toda a história e vale destacar a participação de Hugo Weaving (O Senhor dos Anéis – A Sociedade do Anel, 2001), que tem uma carga dramática essencial no relacionamento com o personagem principal. Agora, uma atuação que certamente você vai se surpreender é a de Vince Vaughn (Os Estagiários, 2013). Conhecido por ser um ator de comédias vem transitando por outros gêneros e aqui interpreta o sargento Howell, que é um personagem mais tenso e pode causar uma certa estranheza, mas que foi de uma atuação muito sólida, tornando-se uma boa aposta de Mel Gibson. As relações de Desmond, interpretado de forma fidedigna por Andrew Garfield (O Espetacular Homem-Aranha, 2012), são bem intensas e dramáticas, em especial com a sua parceira romântica Dorothy, interpretada pela bela Teresa Palmer (Quando as Luzes se Apagam, 2016). A atriz foi de um fino trato em sua interpretação, como uma válvula de escape e porto seguro para o personagem  de Garfield. E podemos tirar o chapéu para ele. Consegue captar a essência do personagem, que tem um tom de ingenuidade e ao mesmo tempo uma segurança que são inacreditáveis. A primeiro momento, pode parecer uma interpretação caricata, mas ao se deparar com cenas da figura real, você tem a certeza do trabalho do ator, que não é à toa indicado ao Oscar de melhor Ator.

Até o Último Homem é um filme que coroa a volta de Mel Gibson aos holofotes de Hollywood. O diretor entrega uma história real muito bem contada, onde equilibra a parte técnica com uma boa edição, fotografia e trilha sonora que fortaleceram  todo o enredo. Não apresenta um filme de guerra, mas sim uma história de defesa de ideais nadando contra a maré. Um filme para fortalecer a fé daqueles que estão a beira de perdê-la, mas sem tirar uma grande pitada de entretenimento.

Ficha Técnica


ATÉ O ÚLTIMO HOMEM (Hacksaw Ridge)
Distribuidor: Diamond Films
Gênero: Drama, Guerra, Biografia
Classificação Etária: 16 anos
Data de Lançamento:  26 de janeiro de 2017
Tempo de Duração: 2 h e 20 minutos
Direção: Mel Gibson
Roteirista: Robert Schenkkan, Andrew Knight
Produção: Bill Mechanic, David Permut
Diretor de Fotografia: Simon Duggan
Montador: John Gilbert
Diretor de Arte: Mark Robins

Elenco: Andrew Garfield (Desmond T. Doss), Vince Vaughn (Sargento Howell), Teresa Palmer (Dorothy Schutte), Sam Worthington (Capitão Glover), Luke Bracey (Smitty Ryker), Hugo Weaving (Tom Doss), Rachel Griffiths (Bertha Doss), Ryan Corr (Tenente Manville).

Sinopse:

Durante a Segunda Guerra Mundial, o médico do exército Desmond T. Doss (Abdrew Garfield) se recusa a pegar em uma arma e matar pessoas, porém, durante a Batalha de Okinawa ele trabalha na ala médica e salva mais de 75 homens, sendo condecorado. O que faz de Doss o primeiro Opositor Consciente da história norte-americana a receber a Medalha de Honra do Congresso.

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