O FAMOSO “TÃO RUIM QUE É ENGRAÇADO”

Jaume-Collet Serra vem atuando no gênero terror há algum tempo. Seu debut nos longa-metragens foi com “A Casa de Cera”, um remake bastante livre da versão original de 1953, dirigida por Michael Curtiz, e que trazia a famigerada cena onde a socialite Paris Hilton fazia paródia com a famosa polêmica de sua sextape vazada. A investida seguinte no terror foi o sucesso de bilheteria “A Órfã”, que trocava o slasher anterior por um filme, que se equilibrava na corda bamba entre o gore e o horror psicológico.

Três thrillers de ação com Liam Neeson depois (Desconhecido, Sem Escalas e Noite Sem Fim), a nova aposta de Serra no terror é “Águas Rasas”, contando com Blake Lively (“A Incrível História de Adaline”, “A Vida Íntima de Pipa Lee”, “Atração Perigosa”) como a protagonista Nance, uma americana amante do surfe, que viaja até uma praia secreta que sua falecida mãe sempre visitava. Não demora muito para o filme entregar o que propõe: após uma rápida construção de personagens, Nance já está na água e antes que percebamos ela é atacada por um tubarão. Salva pela maré baixa, consegue refúgio em uma pequena rocha, onde terá que lutar contra o ferimento e a fome insaciável do tubarão.

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A típica narrativa hollywoodiana usada para vender os filmes exige que o mesmo esteja sempre em movimento, ainda que a trama seja sobre ficar preso em uma pedra com um tubarão à espreita. Quase como um fetiche, a câmera tem que sair frequentemente dali, pelos mais variados motivos – mostrar as pessoas que aparecem na praia e seus gritos de ajuda, tentativas fracassadas de fuga, planos engenhosos, objetos flutuantes que podem vir a ser úteis, visões em devaneios ou delírios… Até basicamente esgotar a sensação de “prisão” que aquele lugar deveria estabelecer.

São poucos os filmes que sabem lidar com a sensação de isolamento: eles frequentemente precisam de muitas sequências de fora dali, precisam de muto diálogo, de um grande número de personagens, de muito background. Como se o terror de estar preso por si não fosse o suficiente. A protagonista precisa escapar para entrar em paz com o passado, para tocar o futuro, para entrar em sintonia com a família, para exercer sua vocação como médica.

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O principal antagonista, o tubarão, também não ajuda. A cada minuto que passa, o inimigo natural ganha contornos cada vez mais exagerados, ganhando habilidades cada vez mais sobrenaturais e inacreditáveis. A perícia da protagonista também cresce pelo minuto. Com isso, a construção de tensão é nula. Primeiro, não nos sentimos presos e sufocados. Segundo, vira mais história de superação do que de sobrevivência, por si. Terceiro, sabemos que o tubarão nunca vai pegar a protagonista de fato (o tubarão alcança todo mundo a tempo, menos ela com a perna ferida) e que ele sempre irá voltar por maior que seja o dano que sofra (como um Jason Vorhees das águas), demonstrando uma força progressivamente maior (no início, não é capaz de atravessar uma barreira de coral; lá para o final, consegue despedaçar estruturas de metal com os dentes), o que vai exigir da protagonista mais do que improviso: o desfecho é, simplesmente, mirabolante.

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Nance vai de uma pessoa inteligente (apesar do roteiro a apresentar inicialmente como a típica “gringa burra”, clichê adorado pelo terror) para uma espécie de Lara Croft dos mares, misto de sobrevivencialista nata e aventureira sortuda.

Veja, não estou criticando uma suposta falta de realismo no filme. Nada a ver com o realismo: um filme precisa ser verossimilhante, por mais fantástico que seja. Mas a nossa suspensão de descrença (ser convencido de maneira lógica do novo mundo que nos é apresentado) não é mantida depois de certo tempo. Se no início parece um filme com protagonistas e antagonistas “naturais”, uma hora ou outra começa a ficar “incrível”, tornando o filme basicamente dois mundos que não casam.

Serra pareceu enfrentar uma escolha: coloquei minha protagonista numa situação que ou ela morre de inanição ou combina sorte com determinação dignas de um herói oitentista. Como é um filme de multiplex, dificilmente se conseguiria comprar a ideia de pessoas morrendo de inanição, sede, insolação ou afogamento. Se os próprios estúdios que encomendam os roteiros já não conseguem lidar com a simples ideia de que o espectador não pode empatizar com uma simples situação em si, tendo que enfiar toda sorte de psicologismo barato. Não é hora de estragar o seu final de semana com histórias de finais injustos ou anti-climáticos, certo?

Nancy (Blake Lively) in Columbia Pictures THE SHALLOWS.

Então sim, como filme de terror, como drama de sobrevivência, é fraquíssimo. Não se decide se vai trabalhar pela exposição ou pela sugestão. Tem bons momentos, quando só ouvimos o som de um dos ataques, mas tem outros simplesmente covardes, onde para cada momento que vemos sua ferida precisamos de um plano de seu rosto, do mar, da gaivota que lhe faz companhia… O grande problema dessa narrativa pretensiosamente contemporânea, construída a base picotes de edição e música “cool” ostensiva porém redundante: é histérica demais e afetada demais. Nada a ver com ritmo, com velocidade, mas na falha de construir atmosfera. Nada a ver com ritmo ou velocidade – os filmes de Edgar Wright, por exemplo, são ligados no 220v com milhões de cortes – mas cada um deles é pensado.

Não parece ser muito o caso desse filme, que raramente parece ter uma estética ou dramaturgia pensada funcionalmente. Ele utiliza frequentemente as telas de celular e relógio de pulso aparecendo no canto da tela, como pós-produção, para tentar deixar o filme mais tecnológico. De início, o relógio serve para marcar para o espectador quando a maré vai subir novamente e sumir com a rocha. Faz sentido mostrar esse relógio quando temos uma tomada aérea do mar? Sim. Do rosto da protagonista? Sim. Mas o que é incompreensível é quando temos um plano detalhe do relógio com o mesmo ainda no canto da tela. Foi para ter certeza absoluta de quanto tempo faltava? Para não dizer da GoPro submarina e da supercâmera lenta, em uso excessivo para capturar. A conclusão que se pode tirar daí é o famoso “fetiche” citado assim. Boa parte é dedicado a “olha o que dá para fazer com esses novos recursos tecnológicos” do que, propriamente, tirar uma construção cerebral daí. Foi o problema, por exemplo, da refilmagem “Caçadores de Emoção: Além do Limite”. Se o original, ainda que imperfeito, carregava consigo uma boa história com imagens potentes, o novo se entregou tanto ao fetichismo tecnológico que já nasceu saturado, cansativo, mal resolvido, quase como se fazer cinema se resumisse ao “olha que incrível esse plano aqui”.

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Mas digamos que com tantos deméritos, uma hora a raiva acaba passando durante a projeção. Com suas muitas falhas por minuto, o filme começa a ficar, veja só, engraçado. Nance não para de falar um minuto. Sabe quando falam que o bom roteiro “não conta, mostra”? Não é o caso aqui. Tudo é explicado por meio de diálogos. Tudo. Ela continua “pensando em voz alta” durante todo o seu confinamento. Não basta medicar uma ferida para mostrar conhecimentos médicos, certo? Não, é necessário colocar a fala “eu faço medicina” com algumas variações  algumas vezes por todo o roteiro. Não basta ver uma câmera ou águas vivas, tem que se falar “olhe, uma câmera” ou “olhe, águas vivas”.

E quando chega na hora da superação – a protagonista perdeu a mãe, largou a medicina, foi para Tijuana surfar para tentar se encontrar – que o filme abre a torneira do clichê e esquece de fechar. Acontece até o momento “carta para a família”, lotado de “eu amo vocês”, “eu sinto muito sua falta”, “eu daria tudo para estar aí”, junto com alguns apelidos para fazer o espectador ter empatia. Mais parece que abriram um “gerador de lugares comuns” que torna tudo tão previsível que passa a ficar na fronteira entre o água-com-açúcar insuportável e a graça involuntária. Como o filme  tem essa vocação pelo escalafobético, então a comédia só cresce.

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Enfim, você sabia que o clássico da comédia nonsense “Apertem os Cintos, O Piloto Sumiu!” reproduzia a trama e diálogos quase integrais de um drama de aviação dos anos 50 chamado “Zero Hour!”, feito para ser levado a sério, causar suspense e arrancar lágrimas? Pois saiba que fácil, fácil dava para pegar cada uma das soluções imbecis do roteiro (toda a história começa porque a protagonista ignora o conselho de não entrar depois de certa hora), dos seus diálogos ridículos e situações inacreditáveis (se te falassem para sair da água por causa de tubarões, sua resposta seria ficar na água e dizer algo do tipo “besteira, não tem tubarão por aqui?”) e fazer uma paródia bem precisa desses dramas de alto-mar.

Na dúvida, pegue o clássico “Tubarão” do Spielberg para assistir – tenso de gelar a espinha até hoje. Mas se estiver afim de avacalhar, esse aqui é tão ruim e tão engraçado quanto “Sharknado”, “Sand Sharks”, “Mega Shark versus Giant Octopus” ou “Shark Exorcist”. Só lembre de chamar a galera, do cooler de cerveja e fazer o drinking game de beber cada vez que alguém entrar na água ignorando aviso, cada vez que o protagonista sobreviver milagrosamente quando o resto morreu, cada vez que um plano estilo-McGyver entrar em ação. Só se lembre do antiácido no dia seguinte!

Ficha Técnica

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ÁGUAS RASAS (The Shallows)
Distribuidor/ Produtora: Sony Pictures / Columbia Pictures
Gênero: Suspense, Terror
Classificação Etária: 13 anos
Data de Lançamento:  11 de Agosto de 2016
Tempo de Duração: 1h 27min
Direção: Jaume Collet-Serra
Roteiro: Anthony Jaswinski
Produtores: Jaume-Colet Serra, Lynn Harris, Matti Leshem, Douglas C. Merrifield
Sup. de Efeitos Visuais: David Nelson

Elenco:
Blake Lively (Nancy), Sedona Legge (Chloe), Óscar Jaenada (Carlos), Brett Cullen (Pai)

Sinopse
Surfando a centenas de metros da costa, a estudante de medicina Nance é atacada por um tubarão branco e fica ilhada em uma rocha durante a maré baixa. Com o perigo da maré subir a qualquer momento e o predador sempre à espreita seu retorno à terra revela-se um desafio perigoso e quase impossível.

CRÍTICA | ÁGUAS RASAS
Direção
Roteiro
Elenco
Fotografia
Montagem
Maquiagem e SFX
2.1Pontuação geral
Avaliação do leitor: (1 Voto)

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