CRÍTICA | A GRANDE MURALHA
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‘ZHANG YIMOU NO PILOTO AUTOMÁTICO EM UM FILME DE BELAS IMAGENS E PÉSSIMO ROTEIRO’

Exoticismo é um tempero ideal para o espectador que quer sair do marasmo, mas não faz questão de se aprofundar muito. Essa é uma questão constante no deficiente roteiro de A Grande Muralha, que leva seu elenco ocidental (Matt Damon, Pedro Pascal, Willem Dafoe) até a China e dali alterna entre uma trama fantástica (a invasão de uma raça de criaturas místicas e a Grande Muralha da China como a última barreira entre eles e a humanidade – Game of Thrones, alguém?) e uma trama mais realista (a cobiça dos três ocidentais em roubar a pólvora chinesa e fazer fortuna com a mesma). As duas tramas poucos tem a ver entre si, são pouco equilibradas e pior, roubam tempo uma da outra constantemente. Poderiam ser dois filmes diferentes.

“A muralha é a única barreira que ainda protege o mundo”.

Desfilando clichês datados – o mercenário de consciência pesada, porém de grande habilidade que se regenera ajudando a causa, os nativos que não  sabem dar um fim à situação com a qual lidam há séculos e que precisam da ajuda do ocidental que acaba de conhecer a situação. Enfim, não é o primeiro filme que vemos isso; é o tipo de narrativa tão repetida que passa a soar irritante, e outros aspectos do roteiro não ajudam em nada. O desenvolvimento dos personagens é previsível, os diálogos são lotados de “frases de trailer” (“você não vai conseguir apagar seu passado”, “a muralha é a única barreira que ainda protege o mundo”, por aí vai). Mesmo aspectos interessantes que poderiam ser melhor desenvolvidos – a origem das criaturas, como sua sociedade funciona – são chances desperdiçadas por um roteiro preocupado em contar muitas histórias e não conseguindo fazer muito por nenhuma delas.

Mas se há um nome que destaca aqui é seu diretor, Zhang Yimou. O chinês fez seu nome nas décadas de noventa e 2000, primeiro com trágicos dramas de época como Lanternas Vermelhas e Amor e Sedução e depois com filmes de artes marciais grandiloquentes que incorporavam sua admiração pela ópera e pelo balé: é o caso dos hiperplásticos filmes cult Herói e O Clã das Adagas Voadoras, que reavivaram um interesse pelo cinema chinês que o Ocidente havia esquecido desde o retorno do mestre de ação John Woo a Hong Kong. Aqui, em seu primeiro projeto de expansão internacional, tenta se equilibrar – com resultado indigesto – o épico oriental com suas tradições, hierarquias e frequente sisudez com o individualismo do herói blockbuster americano, frequentemente anti-heroico e irreverente com tradições.

Jing Tian é a Commandante Lin Mei.

Mas Yimou prova não ter perdido o olho para ação: o fraco roteiro parece até uma desculpa para as longas sequências de batalha, onde ele voa com travellings, panorâmicas, câmera lenta e cortes calculados fotografando monstros e humanos cheios de cores, com elaboradas coreografias e acrobacias no meio das lutas. Na mesma medida que o filme carrega cenas chatas, personagens dispensáveis e tramas modorrentas, carrega toda a elaboração e importância que o diretor dá em construir seus personagens pela ação e menos pela explicação, e é inclusive uma pena ver seu cinema tão poderoso em um estado tão engessado. O sujeito conseguiria filmar uma partida de bocha de maneira emocionante e tensa – e não à toa foi um dos nomes em ascensão do cinema na década passada, rivalizando até mesmo com o grande destaque que o cinema sul-coreano teve à época com seus filmes inventivos e ultraviolentos.

As cenas de batalha são as partes mais empolgantes de um filme que é a própria definição do “estilo sobre substância”, com as sequências embaladas pela excelente música do germano-iraniano Ramin Djawaldi (responsável pelas marcantes trilhas sonoras dos seriados da HBO “Game of Thrones” e “Westworld” e dos filmes “Homem de Ferro” e “Círculo de Fogo”). Um dos melhores compositores em atividade, sabe soar tanto marcial, brutal e violento quanto exótico, estranho mas ainda assim comovente com uma aparente facilidade impressionante. Já tem tempo que está dando um banho inclusive em dinossauros da profissão, como Hans Zimmer. Não demora muito para o sujeito entrar no seleto rol dos grandes compositores de trilhas do cinema.

Matt Damon é o ocidental salvador da Pátria.

A Grande Muralha não tem um por cento do impacto estético ou dramaticidade narrativa dos grandes clássicos do diretor e dá até pra dizer que esse é seu “piloto automático”, onde vemos seu talento em filmar a violência em seu faceta mais bela e agradável. Afinal, artes marciais ainda são “artes”, não?

Só esperamos que, se for continuar com sua incursão pelo cinema ocidental, que Yimou tenha melhor sucesso do que agora, porque mesmo ambicionando ser um épico sobre a maravilha mundial de seu país, A Grande Muralha é um pálido espectro de tudo o que diretor já fez antes com um resultado mais vibrante, explosivo e original.

Ficha Técnica

A GRANDE MURALHA (The Great Wall)
Distribuidor: Universal Pictures
Gênero: Aventura, Fantasia, Histórico
Classificação Etária: 12 anos
Data de Lançamento:  23 de fevereiro de 2017
Tempo de Duração: 1h e 44 minutos
Direção: Zhang Yimou
Roteiro: Tony Gilroy, Max Brooks, Edward Zwick, Marshall Herskovitz
Produção: Thomas Tull, Jon Jashni, Charles Roven, Alex Gartner, Edward Zwick, Marshall Herskovitz
Trilha Sonora: Ramin Djawadi

Elenco: Matt Damon (William Garin), Jing Tian (Commander Lin Mei), Pedro Pascal (Pero Tovar), Willem Dafoe (Ballard), Zhang Hanyu (General Shao), Andy Lau (Strategist Wang), Numan Acar (Najid), Eddie Peng (Commander Wu/Tiger)

Sinopse:

No século XV, um grupo de soldados britânicos está combatendo na China e se depara com o início das construções da Grande Muralha. Aos poucos eles percebem que o intuito não é apenas proteger a população do inimigo mongol e que a construção esconde na verdade um grande segredo.

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