‘DA CALMARIA À LOUCURA’

O livro escrito por Paula Hawkins mal se acomodou na estante e já ganhou as telas de cinema. O motivo, obviamente, foi o bem-sucedido Garota Exemplar (2014), de David Fincher, fazendo de A Garota no Trem (2016) sua sucessora natural. As comparações terminam por aí.

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O filme é uma adaptação do livro escrito por Paula Hawkins

Agora, muito longe da santa Amy Exemplar (personagem central de Garota Exemplar), Rachel, a bêbada interpretada por Emily Blunt, tenta sobreviver em meio ao alcoolismo e o tédio de sua vida. Para não lidar com seus problemas, Rachel observa a casa de Megan (Haley Bennett) e Scott (Luke Evans) todos os dias enquanto viaja de trem, imaginando como seria a vida perfeita dos moradores da casa. Durante as viagens, a garota do trem descobre que Megan trabalha de babá na casa que um dia foi sua, mas agora é habitada por Anna (Rebecca Ferguson), Tom (Justin Theroux) e a filha do casal.

A história gira em torno de três mulheres e, como sinal de nosso tempo, as questões femininas, intrínsecas ao feminismo, pululam em cada curva do emaranhado de eventos que é o roteiro do filme. A tradução do livro ficou por conta de Erin Cressida Wilson, de Homens, Mulher e Filhos (2014), que falha ao dar profundidade a cada uma das principais. Por sorte, a atuação de Emily Blunt foi notável.

Seria quase impossível se conectar com alguém com situações tão específicas sem que houvesse o mínimo de credibilidade em suas emoções. Nesse aspecto, a atriz consegue sobressair à genérica construção de sua personagem e torna-se alguém verdadeiramente perturbada física e mentalmente. De maneira aceitável, as duas outras atrizes principais cumprem seu papel, mas as limitações de roteiro as deixam defasadas, especialmente no clímax de suas respectivas histórias.

Emily Blunt tem uma atuação notável

Emily Blunt tem uma atuação notável

Quando o suspense e a investigação centralizam a história, o filme falha novamente no roteiro, especialmente do segundo ato em diante, confundindo as questões femininas e de relacionamento (e ainda o encontro de todas) com a própria resolução dos mistérios em que o espectador é colocado. Em outras palavras, quando o alcoolismo, a maternidade, o abuso, o gaslighting e a pressão social falham, apela-se para o crime, que deveria ser consequência de tanta complexidade, enfatizando sua investigação em conjunto com o público, porém a transição é turbulenta, com pontas soltas e corrida – ironicamente corrida, afinal, o ritmo do filme é o completo oposto. Ainda que arrastado, o filme parece não ter tempo de resolver tudo o que quer.

Já a fotografia, de Charlotte Bruus Christensen (A Caça, 2012), encontra-se no trilho certo do peso dos humanos dentro da fantasia de terror. Entre planos fechados, salientando a versão contemplativa de Rachel, e câmeras tremidas, buscando o desfoque quando a própria Rachel perde o rumo, o horizonte abre-se quando o acúmulo de interações e fecha-se com a falta delas, especialmente na cena final, mostrando a intimidade e a sororidade de quem pode sentir na pele praticamente as mesmas violações.

A mesma competência é aplicada nas trocas de tons de cores e trilha sonora não só de cenário para cenário, mas diante de perspectivas diferentes, elevando o longa a um nível tecnicamente mais apurado e corrigindo falhas pontuais do roteiro. De certa forma, ao orquestrar todos os elementos, o diretor Tate Taylor (Histórias Cruzadas, 2011) tentou recuperar problemas da narrativa e fez com sucesso.

Ficha Tecnica

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A GAROTA NO TREM (The Girl On The Train)
Distribuidor/ Produtora: Universal Pictures Brasil
Gênero: Suspense
Classificação Etária:
Data de Lançamento: 27 de Outubro de 2016
Tempo de Duração: 1h 53min
Direção: Tate Taylor
Roteiro: Erin Cressida Wilson, Paula Hawkins
Produtor: Marc Platt

Elenco: Emily Blunt (Rachel Watson), Rebecca Ferguson (Anna), Haley Bennett (Megan), Justin Theroux (Tom), Luke Evans (Tom), Allison Janney (Detetive Riley), Lisa Kudrow (Martha), Édgar Ramírez (Dr. Kamal Abdic), Laura Prepon  (Cathy)

Sinopse
Rachel (Emily Blunt), uma alcoólatra desempregada e deprimida, sofre pelo seu divórcio recente. Todas as manhãs ela viaja de trem de Ashbury a Londres, fantasiando sobre a vida de um jovem casal que vigia pela janela. Certo dia ela testemunha uma cena chocante e mais tarde descobre que a mulher está desaparecida. Inquieta, Rachel recorre a polícia e se vê completamente envolvida no mistério.

CRÍTICA | A GAROTA NO TREM
Direção
Roteiro
Fotografia
Trilha Sonora
Montagem
3.7Pontuação geral
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