OBSERVANDO O CARNAVAL

Acompanhando o processo de preparação para o carnaval da Escola de Samba Portela, o diretor Nelson Hoineff, vindo do jornalismo e da televisão, é bastante íntimo ao tratar de aspectos da cultura brasileira, como mostram seus outros documentários, “Cauby – Começaria Tudo Outra Vez”, “Caro Francis”, “Alô, Alô Terezinha!” e o “Homem Pode Voar”.

Se antes, porém, falávamos de figuras específicas, como Cauby Peixoto, Paulo Francis, Chacrinha e Santos Dumont, aqui o cineasta “abre” o leque e conta a narrativa por meio de inúmeras perspectivas – desde a escolha do samba-enredo da Portela em 2015, passando pelos ensaios de coreografias e manufatura de cenografia, chegando até certas questões polêmicas envolvendo o Carnaval carioca.

O filme tem seus melhores momentos quando foca em sua proposta observativa, de filmar a introdução, preparação e evolução da escola de samba ao longo de suas duas horas, elencando personagens – compositores, coreógrafos, porta-bandeiras, músicos, entre outros – que servem como nossos pontos de vista por dentro do dia a dia que culminará no grande desfile e um pouco após isso, quando vemos a apuração das notas.

O documentário porém sofre de algumas falhas. Primeiro, uma sensação de incompletude, com muitos momentos sendo introduzidos e não abordados de maneira satisfatória, como uma acusação feita por um comunicador em um vídeo que a escola estaria recebendo ajuda do prefeito Eduardo Paes, portelense roxo, e que talvez por isso ganhasse o carnaval aquele ano; tirando a cena que aparece, não há maiores implicações sobre isso. Entendemos que o desfile seria uma maneira que a escola ganharia por méritos próprios, mas tal momento jamais volta.

Dentro desse quê de incompletude, há o fato de que o filme também é esquemático, indo e voltando de maneira quase previsível em seus “núcleos”, como o ensaio de dança, música e a criação das alegorias. Ainda que a rotina estabelecida de um tempo nos dê certo envolvimento emocional com a escola, também há a sensação de que muitos dos momentos presenciados não tem grandes propósitos.

Por último, há uma questão que envolve no final do filme a vitória da Beija-Flor, cujo samba-enredo homenageava o ditador da Guiné Equatorial Teodoro Obiang. Movido por paixão, o filme chega a romper com sua própria estética ao inserir letreiros narrativos em cima de imagens (até então, o filme pouco tinha ido além de legendas introdutórias de pessoas e lugares) e capas de jornal, o que não possui muitas relações com o resto do filme, esteticamente falando. No bruto de um documentário de duas horas não haveria uma conversa ou pronunciamento sobre o assunto, sem precisar lançar mão de recursos que não fossem audiovisuais?

Depois de duas horas, é quase impossível não cantarolar os temas entoados por todo o filme; e que não nos sintamos íntimos com aquelas pessoas. Já cantamos com eles, rimos com eles, sambamos com eles, choramos com eles. Mas fica a sensação que o filme poderia ter sido mais, explorar mais minúcias, ser mais visceral nos dramas que aborda; aqui, fica pelo meio do caminho.

Ficha Técnica

82MINUTOS82 MINUTOS
Distribuidor/ Produtora: 
Gênero: Documentário
Classificação Etária: 14 anos
Data de Lançamento:  18 de agosto de 2016
Tempo de Duração: 2h 05min
Direção: Nelson Hoineff
Roteiro:
Nelson Hoineff
Produtores:
Flavio Besse
Fotografia: Pedro kuster
Montador: Rodrigo Pastore

Elenco:
Atores Desconhecidos

Sinopse
O documentário desvenda o que há por trás da construção do Carnaval carioca. Com imagens dos bastidores da Portela, que vão desde a escolha do samba-enredo até a apuração dos votos na Quarta-Feira de Cinzas, o filme lança um olhar sob esse fenômeno cultural que atrai os olhares do mundo inteiro, todos os anos.

CRÍTICA | 82 MINUTOS
Roteiro
Direção
Fotografia
Montagem
Som
2.6Pontuação geral
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