NETFLIX | BEASTS OF NO NATION (CRÍTICA)
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4.5Pontuação geral
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‘A FORÇA REFLEXIVA DA FICÇÃO’

Situações extremas que não fazem parte do nosso cotidiano, das quais só ouvimos falar em jornais e documentários. Os personagens que são afetados de maneira irreversível pelos contextos onde vivem. O diretor Cary Joji Fukunaga já havia chamado certa atenção com seu drama de imigração Sem Identidade (2009) e com sua adaptação literária Jane Eyre (2011). Mas a glória veio mesmo em 2014,  quando dirigiu a primeira temporada da série da HBO True Detective, onde em parceria com o roteirista Nic Pizzolatto, Cary filmou a descida ao inferno de dois detetives da homicídios em um Estados Unidos pouco explorado pela mídia, sombrio e violento, com assassinos seriais, gangues de traficantes e cultos religiosos bizarros escondidos a cada esquina.

Beasts of No Nation, drama de guerra baseado no livro homônimo do nigeriano Uzodinma Iweala (título retirado de um disco do músico e ativista político conterrâneo Fela Kuti) é o tipo de material que parecia pedir ser dirigido por alguém como Fukunaga. A história do menino Agu, que vive em uma área ameaçada pela guerra entre um governo militar e golpista e um exército de rebeldes, vivendo numa relativa segurança reforçada por tropas de segurança internacional.

Abraham Attah em seu primeiro papel que rendeu um sem número de indicações e prêmios.

Se no início conhecemos a sua rotina baseada no que fazer quando a escola é suspensa, dividindo o tempo entre brincadeiras e travessuras com amigos e parentes, não tardará a chegarmos ao ato crucial do filme: a guerra chega até o vilarejo de Agu, com as tropas do governo militar assassinando quase todos os homens adultos e jovens. Perdido na mata densa, não tardará até ele ser encontrado pela tropa do “Comandante”, líder rebelde interpretado por Idris Elba que recruta homens de qualquer idade para lutarem contra os inimigos políticos de seus superiores.

Após passar por uma iniciação envolvendo rituais religiosos e torturas físicas, Agu torna-se uma das crianças-soldados do Comandante, retratando um dos mais tristes fenômeno atuais – 300.000 crianças servem como combatentes de pelotões e milícias nos dias de hoje. Apesar de não ser uma prática nova, ela se multiplicou nos últimos tempos principalmente na África, onde as inúmeras guerrilhas e a epidemia da AIDS criaram milhões de órfãos.

A câmera de Cary não poupa nada: o filme é de uma violência seca, com pouca concessão ao melodrama e ao psicologismo – nas poucas vezes que é utilizado, é de maneira sutil, com a música grave e pesada e com a narração em off falando mais dos anseios do protagonista do que nos explicando de maneira didática a história. Sem nem ter feito quinze anos ainda, Agu é obrigado a matar para não morrer, para então passar a matar por ímpeto, passar a usar drogas pesadas para abrandar a sensação terrível de experimentar violência nauseante e perda do núcleo familiar, é torturado, privado de alimentação e educação e abusado sexualmente.

Idris Elba está assustador da primeira à última cena como o Comandante.

Trabalhando com violência gráfica explícita ou com a sugestão sombria, o filme não poupa o espectador de uma chocante maré de imagens, que transformam radicalmente a percepção do protagonista do mundo e de si mesmo – se no início ele reza a Deus para que possa ver a família um dia de novo, lá para o final da obra Agu acha que está sendo ignorado pelo céu e não se sente mais apto a se ajustar socialmente, vendo a si mesmo como um demônio depois de tantas atrocidades cometidas.

Idris Elba (Star Trek: Sem Fronteiras, 2016) está assustador da primeira à última cena como o Comandante, uma figura predatória e carismática, que usa seu talento de discursar e fidelizar seus comandados unicamente para moldá-los como seus assassinos. Com sua postura megalômana e maior que a vida, domina a tela por onde passa. Seus discursos são perigosamente arrebatadores, e com a mesma intensidade ele discute, intimida e coage inimigos, aliados e superiores. Uma performance simplesmente magnética.

À mesma altura temos o protagonista e personagem de ponto de vista interpretado pelo ator mirim Abraham Attah. Seu primeiro papel rendeu um sem número de indicações e prêmios, sendo o mais importante o prêmio Marcello Mastroianni de melhor ator mirim no Festival de Veneza. Com 13 anos, quando fez o papel, teve um desafio radical, de representar tanto um menino travesso e inocente quanto uma alma consumida pela perda e pela brutalidade. São nas microexpressões que ele realmente impressiona, mais do que nos gritos e choros. Quando titubeia, quando está em dúvida, quando se arrepende… Conseguimos ver nos seus olhos e nos seus silêncios a jornada emocional enfrentada pelos personagens.

A montagem da narrativa cheia de elipses e planos maiores criam muitos filmes em um só.

Criou-se nos últimos anos toda uma linguagem para se filmar tensão e violência no cinema e na televisão em formato digital. Tramas de crime, assassinato e guerra recebem um tratamento que conta com longos silêncios em longos planos para dar uma sensação de tempo dilatado,; com quadros menores (batentes, janelas, corredores) dentro do quadro maior para denunciar a sensação de aprisionamento e clausura na qual os personagens se encontram; onde possíveis erros de fotografia (como clarões, luzes estouradas e afins) são incorporados à linguagem, assim como a câmera na mão, aumentando não apenas a sensação “documental” de veracidade, mas também a sensação de urgência e espontaneidade.

A montagem da narrativa, cheia de elipses e planos maiores criam muitos filmes em um só, menos um filme de trama e como o personagem responde a mesma (como era o caso em True Detective) mais um filme que é um estudo de personagem e como inúmeras tramas moldam o personagem. Pode até aparecer aos nossos olhos como cansativo (e é verdade que o filme possui um miolo passível de ser enxugado, já que algumas cenas do meio para o final podem soar redundantes, mas o investimento compensa e muito.

Conseguimos ver nos seus olhos e nos seus silêncios a jornada emocional enfrentada pelos personagens.

É verdade que nas mãos de muitos diretores tal linguagem contemporânea se torna um fetiche, um modismo gratuito que pouco acrescenta na narrativa. Mas nas mãos sólidas e consistentes de Fukunaga, temos um filme visceral e arrasado sobre uma infância roubada, com questões adultas que criança nenhuma deveria enfrentar. E falando do indivíduo, ele fala do mundo, que está cheio de “Agus” tendo suas vidas despedaçadas, suas famílias exterminadas e sendo moldadas pela crueldade de adultos.

O preconceito que ficção nunca poderá ser mais relevante que uma reportagem cai por terra com filmes feito Beasts of No Nation e toda a força de seu potencial reflexivo. Um artesão maduro no auge da sua forma cravando mais um de seus filmes necessários com sua câmera reveladora. Se toda parceria de Fukunaga render resultados como os que atingiu com a HBO e a Netflix, é de se torcer que continue por muito tempo.

Ficha Técnica

BEASTS OF NO NATION
Distribuidor: Netflix
Gênero: Drama, Guerra
Classificação Etária:
Data de Lançamento:  16 de outubro de 2015
Tempo de Duração: 2h 16min
Direção: Cary Fukunaga
Roteirista: Cary Fukunaga
Diretor de Fotografia: Cary Fukunaga
Produção: Riva Marker, Cary Fukunaga, Idris Elba, Bill Benenson
Montador: Mikkel E.G. Nielsen

Elenco: Idris Elba (Comandante), Abraham Attah (Agu), Jude Akuwudike (Supreme Commander Dada Goodblood), Ama K. Abebrese (Mãe), Richard Pepple (Father Friday).

Sinopse:
Em uma cidade africana, Agu (Abraham Attah) é uma criança, que atingida pela guerra, é transformada em soldado. Após a morte de seu pai por militantes, ele é obrigado a abandonar sua família para lutar na guerra civil da África do Sul, instruído por um grande comandante (Idris Elba) que o ensinará os caminhos de um conflito.

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