“Amedrontador com roteiros inteligentes e progressivamente tensos”

É dito por aí com certa injustiça que o terror é um gênero decadente, com o mercado para esse tipo de filme relegado à remakes de clássicos e produções baratas e descartáveis baseados em roteiros furados, atuações medíocres e situações mais engraçadas que propriamente assustadora. Sempre contesto quando ouço tal tipo de afirmação. Não por tais filmes não existirem, mas que relegar o gênero a isso soa como preconceito ou desconhecimento. Afinal de contas, dezenas de comédias besteirol ruins sem graça nenhuma chegam aos cinemas todos os anos e não se faz a mesma afirmação sobre os filmes de comédia. Ou sobre as cinebiografias didáticas. Ou sobre romances água-com-açúcar.

Pois bem, ainda que digam que são exceções, o fato é que bons – alguns excelentes – filmes de terror foram feitos nos últimos anos. Filmes que cumprem de maneira esplêndida a missão de construir um clima amedrontador com roteiros inteligentes e progressivamente tensos, atuações bem construídas e com propostas instigantes. Vamos ver abaixo, então, cinco dos grandes momentos que o terror teve nos últimos anos.

O Hospedeiro (2006)

A Coréia do Sul, a partir do neoclássico de vingança Oldboy (2003) inaugurou uma geração de cineastas que conquistaram público e crítica ao redor do mundo com filmes sombrios, violentos e moralmente ambíguos. O Hospedeiro, dirigido por Bong Joon-ho, explora o filão do filme de monstro explicitando os problemas sociais do novo milênio elenca protagonistas “losers” envergonhados de não vencerem na vida e retrata a paranoia e alienação urbana mostrando uma cidade onde todos estão com medo o tempo todo. O monstro explicita esses problemas ao surgir, abduzindo pessoas, espalhando um vírus e espalhando pânico e caos em um filme tenso do início ao fim, com um clímax catártico que permanece com quem assiste.

Martyrs (2008)

Houve uma tendência cultivada no início desse século chamada por críticos de torture porn – nome dado a filmes que tinham como grande apelo a extrema violência gráfica, como Jogos Mortais (2004) e O Albergue (2005) – e Martyrs talvez seja o mais sólido e consistente desse filão, sem espaços de leveza para respirar, com uma atmosfera escura e niilista permeada desde o início já à mil e com pelo menos três grandes momentos em uma narrativa recheada de picos de tensão. Foi também a consagração do terror francês, em uma década que o país entregou vários exemplares de um cinema de gênero bem feito.

Triângulo do Medo (2009)

Esse slasher inglês engana o espectador de forma surpreendente: quem achar que vai ver mais um filme onde as mortes são catalogadas de forma preguiçosa por um assassino de roupa diferente vai quebrar a cara com um roteiro extremamente engenhoso abordando um enredo com tema científico/especulativo que costura um filme que não segura a mão para criar tensão e mistério que explodem em violentas (e criativas) sequências. Para os amantes dos plot twists, eventos surpreendentes que alteram toda a nossa percepção de um filme, é um prato cheio. Vale citar que o diretor Christopher Smith dirigiu em sequência o aflitivo drama medieval Morte Negra, com as estrelas de Game of Thrones Sean Bean e Carice Van Houten.

Invocação do Mal (2013)

James Wan, o responsável por criar Jogos Mortais, uma das mais populares franquias do horror recente, chutou o pau da barraca com Invocação do Mal, que se distanciou do horror ultraviolento do início de século para contar uma história classuda sobre casos sobrenaturais, na linha de clássicos do gênero como Desafio ao Além e Horror em Amytiville, com a referência ao terro atmosférico setentista sentida já nos créditos retrô. Com a trama baseada na história real dos investigadores paranormais Ed e Lorraine Warren, o filme também tornou ícone a boneca possuída Annabelle, sendo a segunda criação de Wan e sua equipe que virou referência cultural (o primeiro foi a marionete Billy, de Jogos Mortais).

A Bruxa (2015)

Não é difícil entender a aura de cult movie que A Bruxa rapidamente angariou, causando burburinho, discussões e expectativa meses antes de seu lançamento. O filme de Robert Eggers é todo dedicado à atmosfera e clima geral de maldade e escuridão, com a ambiência do filme – os primórdios da civilização norte-americana, as pessoas morando em vilas, a fé e a superstição, a Revolução Puritana, a histeria em massa – tendo papel central em erguer um filme que leva o espectador em uma viagem sem volta de terror psicológico, ao lado da fotografia melancólica e lúgubre que parece escurecer a cada minuto de projeção. A Bruxa é o tipo de filme que já podemos chamar de clássico instantâneo: chegou com uma força avassaladora nos circuitos de cinema com uma aclamação à sua volta que não se via há muito tempo. Resta saber se a memória coletiva cinéfila perpetuará esse novo hit do gênero.

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