‘A DESPEDIDA DE UM DOS GRANDES ATORES DO SÉCULO 20’

Sir John Vincent Hurt nos deixa em 27 de Janeiro de 2017 após uma carreira de seis décadas e uma marca de impressionantes 205 filmes (segundo o IMDB) entre 1961 e 2017. Com certeza todos nós já vimos, mesmo que não nos lembremos, algum momento seu e fomos afetados por sua versatilidade, sua capacidade dramática e o poder de sua voz. Nascido em 22 de Janeiro de 1940, em Derbyshire, teve uma infância problemática, marcada por criação religiosa e abusos, além de pouco estímulo de parentes ou professores a empreender na carreira artística. Felizmente, conseguiu superar tudo isso e se matricular em uma escola de arte em 1959. Não tardaria a participar de seu primeiro filme e a partir daí marcar época(s) como um dos grandes atores britânicos no seu tempo, em teatro, cinema e televisão. Vamos conhecer alguns de seus grandes personagens.


 

RICHARD RICH EM ‘O HOMEM QUE NÃO VENDEU SUA ALMA’ (FRED ZINNEMANN, 1966)

Baseado em uma peça inspirada em uma história real, sobre a luta política entre o rei Henrique VIII e o lorde chanceler Thomas More, por causa do desejo do primeiro de se divorciar de Ana Bolena, Hurt teve seu primeiro papel de destaque como o ganancioso Richard Rich, um barão que conspira para derrubar More e assumir o cargo para si. Ambicioso desde o primeiro momento, mudando de igreja conforme lhe interessa dando falso testemunhos em tribunais, acusando outros de espionagem e galgando terras, títulos e posições na corte, Rich é certamente um personagem detestável, cujo alma corrompida foi representada exemplarmente por Hurt.


 

CALÍGULA EM ‘EU, CLÁUDIO’ (1976)

Aparecendo em cinco dos treze episódios da série inglesa, Hurt após ganhar indicações ao BAFTA e prêmios do British Television Award por projetos anteriores se tornou aclamado ao desempenhar o papel do pervertido e lunático imperador de Roma em uma série que conta a ascensão do Imperador Cláudio, dos dias do Imperador Augusto até sua ascensão, onde vemos Roma como palco de intrigas, assassinatos e traições. De início, John Hurt declinou o papel, mas ainda bem que aceitou: de outra forma não teríamos o Calígula que fala olhando para o nada, balbuciando seus delírios de grandeza entre um ato de extrema violência e outro, em cenas ainda indigestas que são a cara dos anos 70.


 

MAX EM ‘O EXPRESSO DA MEIA NOITE’ (ALAN PARKER, 1978)

Esse pesado e emocional drama de prisão da década de 70 conta a história de Billy Hayes, um jovem que é condenado à prisão perpétua na Turquia ao ser flagrado com haxixe. As condições desumanas e provações que enfrenta com o autoritarismo e sadismo das autoridades turcas tem como suporte no elenco o personagem de Max, um viciado em heroína que se torna um de seus poucos amigos junto com Jimmy, americano preso por roubo. Em uma atuação que lhe valeu uma indicação ao Oscar de Ator Coadjuvante, Max é um personagem ao mesmo tempo frágil, sombrio e sarcástico, que se torna uma das poucas conexões emocionais de Billy naquele inferno regado a escuridão, tortura e solidão. 1978 marcou seu retorno à tela grande após as bem-sucedidas investidas televisivas.


 

ARAGORN EM ‘O SENHOR DOS ANÉIS’ (RALPH BAKSHI, 1978)

Sim, você não leu errado; em 1978 houve uma versão de O Senhor dos Anéis feita em animação pelo lendário diretor Ralph Bakshi, um dos pioneiros da animação adulta americana (responsável também pelo controverso Fritz The Cat e as animações fantásticas Wizard e Fogo & Gelo). Nessa narrativa bem mais fiel ao livro do que a versão de Peter Jackson, Hurt empresta a sua voz ao patrulheiro que se torna rei com distinção, sabendo soar ameaçador, altivo e firme em diferentes momentos, tendo sua interpretação uma gama de tons mais variadas que o segundo intérprete do personagem, Viggo Mortensen. Mas evitando comparações, o Aragorn de John Hurt impressiona pela força que sua voz emana em todas as suas cenas, sem nunca soar excessivo como acontece com outros companheiros de cena.


 

KANE EM ‘ALIEN – O OITAVO PASSAGEIRO’ (RIDLEY SCOTT, 1979)

Em 1979, Hurt entrou para a história ao protagonizar uma das cenas mais clássicas do século vinte. Nesse terror de sobrevivência nascido da direção de Ridley Scott e do roteiro de Dan O’ Bannon, o personagem de Hurt é Kane, incauto oficial da nave comercial Nostromo que tem o azar de ser a primeira vítima de uma forma de vida que se reproduz de forma parasitária. Incubando de forma violenta seus ovos goela abaixo do indivíduo que tem sua face agarrada pelo embrião, a forma alienígena tem sua curta gestação dentro do corpo do indivíduo que quando nasce. Bem, a história fala por si. Hurt tendo convulsões na mesa de jantar, seu peito inflando ao ponto de arrebentar e a forma de vida que rasga sua caixa torácica entrou nos anais do cinema como uma de suas cenas mais aterrorizantes e repulsivas. O roteirista O’Bannon explicou que a intenção era representar um estupro masculino, com o Alien se reproduzindo de forma não-consensual e causando um severo trauma ao hospedeiro na hora de nascer. A cena de Hurt é tão marcante quanto a criatura Xenomorfo e a protagonista, a durona Ellen Ripley. Quem já viu o filme há muito tempo pode ter esquecido de muita coisa, mas com certeza não dessa cena.


 

JOHN MERRICK EM ‘O HOMEM ELEFANTE’ (DAVID LYNCH, 1980)

Hurt é protagonista na primeira produção de David Lynch para um estúdio de maior porte, após o diretor balançar o cenário underground americano com o bizarríssimo Eraserhead. O Homem Elefante é um dos filmes mais convencionais de Lynch, apresentando uma narrativa fechada, sem quase nenhum devaneio. O filme é baseado em uma história real, onde o personagem de Hurt, chamado John Merrick, é um homem severamente deformado exibido como atração em um circo de aberrações. Tirado de lá pelo médico Frederick Treves (Anthony Hopkins), ele luta para expôr sua sensibilidade e humanidade enquanto muitos não o veem como nada além de um monstro. Questiona-se, assim, o que é normal, já que os indivíduos que o acusam de aberração por sua aparência cometem todo o tempo atos monstruosos. Sucesso internacional de público, crítica e premiações, não só é um clássico da década mas ao mesmo tempo também é um daqueles filmes onde tudo deu certo.


 

WINSTON SMITH EM ‘1984’ (MICHAEL RADFORD, 1984)

Adaptado do romance de George Orwell, clássica crítica ao totalitarismo que conta a história de Winston Smith, habitante da Oceania, país controlado com mão de ferro pelo líder misterioso Grande Irmão. O solitário Winston trabalha para o Ministério da Verdade – uma subdivisão encarregada pela censura e desinformação – até o dia em que se apaixona pela colega Júlia, que desperta nele não apenas desejos sexuais como também rebeldia, sensação ainda mais inflamada por O’Brien, um membro do Partido que revela-se um conspirador. Não só foi considerada a adaptação da obra mais sombria até então como  também Hurt foi considerado como o Winston Smith ideal: um homem absolutamente comum sequestrado de sua existência medíocre para dentro de um pesadelo político totalitário. Uma atuação simplesmente impressionante em uma adaptação à altura de uma das obras-primas da literatura do século vinte.


 

GARRICK OLIVARAS EM ‘HARRY POTTER E A PEDRA FILOSOFAL’ (CHRIS COLUMBUS, 2001)

Harry Potter não virou um sucesso apenas por causa do seu universo rico e de sua trama envolvente. Outro fator que contribuiu foi a participação da nata do cinema inglês: lendas do quilate de Maggie Smith, Alan Rickman, Kenneth Branagh, Richard Harris, Gary Oldman, John Cleese, David Thewlis, Helena Bonham Carter, Ralph Fiennes e outros foram responsáveis por emprestar seus talentos dramáticos à cinessérie do garoto que se torna um dos grandes bruxos da história. Hurt, lenda que era, não ficaria de fora, é claro: sua participação curta como o vendedor de varinhas Senhor Olivaras é divertida e excêntrica ao mesmo tempo, causando tanto estranhamento quanto fascínio em seu processo de encontrar a varinha ideal para cada bruxo. Em seu retorno na trama de As Relíquias da Morte, sétimo e último filme da série, tem uma participação ainda mais dramática e decisiva, onde Hurt pôde mostrar todo o seu talento para o drama.


 

PROFESSOR TREVOR “BROOM” BRUTTENHOLM EM ‘HELLBOY’ (GUILLERMO DEL TORO, 2004)

Hurt, então com 65 anos, emprestou sua experiência à trama que Guillermo Del Toro adaptou dos quadrinhos sobre um demônio invocado à época da Segunda Guerra que acaba revelando ser de boa índole, interpretando o professor Trevor Bruttenholm, um mentor experiente, especialista em assuntos sobrenaturais, que cuida de Hellboy desde pequeno e o ensina valores e conhecimentos, trabalhando juntos para impedir a ação das forças do mal sobre o mundo enquanto desenvolvem um relacionamento equivalente ao de pai e filho. Ainda que esteja na zona de conforto, preenche muito bem o papel do especialista do filme, do “cérebro”, com sua característica voz e dicção compondo belamente, jamais sendo apenas o papel do “coadjuvante de luxo”. Mesmo quando não ousava, dava para ver o gosto de Hurt por estar em cena.


 

JELLON LAMB EM ‘A PROPOSTA’ (JOHN HILLCOAT, 2005)

Conhecido pelo sombrio e fatalista filme pós-apocalíptico A Estrada (2009), estrelado por Viggo Mortensen, John Hillcoat começou sua carreira como diretor de videoclipes – dirigindo clipes para Depeche Mode, Bob Dylan, Placebo, entre outros – e lá pela década de oitenta iniciou uma sazonal carreira cinematográfica, composta sempre por filmes secos e violentos, como é o caso de A Proposta, um faroeste protagonizado por foras-da-lei perseguidos pelas autoridades. Mesmo em um papel de participação curta, John Hurt impressiona como um caçador de recompensas alcoólatra, velho e decadente, dando vida a monólogos para lá de sombrios e filosóficos (o roteiro é escrito pelo cantor gótico Nick Cave) que só reforçam a sensação geral de pessimismo e brutalidade. Aos resmungos, risadas e gritos, ofusca os companheiros de cena sempre que aparece.


 

ALTO CHANCELER ADAM SUTLER EM ‘V DE VINGANÇA’ (JAMES MCTEIGUE, 2005)

Um dos sucessos de bilheteria de 2005 que fez a cabeça de muita gente foi V de Vingança, que rapidamente tornou-se um filme cult. Nessa distopia onde um regime fascista governa a Inglaterra, perseguindo e oprimindo os cidadãos e tendo que lidar com as práticas terroristas do anarquista mascarado V, Hurt é Adam Sutler, que após uma grande varrer boa parte da humanidade funda um partido chamado Fogo Nórdico e toma o poder sobre a Inglaterra, perseguindo oponentes políticos e minorias. Interpretando o líder absolutista e não a vítima oprimida, dá para dizer que Hurt vivenciou os dois lados da moeda; Sutler é nervoso, cruel e temperamental, com um fôlego infinito para resmungar ordens e ameaçar os comandados. Com o rosto visto na maioria das aparições como um enorme close projetado numa tela para os seus subordinados, Hurt se beneficia disso valorizando os pequenos movimentos, como o olhar possesso de ódio, a boca entortada e mau-humorada, os movimentos intensos e retilíneos de cabeça e tronco. Soube incorporar perfeitamente o oposto da anarquia de V, sendo a face perfeita do típico vilão de distopias.


 

CONTROL EM ‘O ESPIÃO QUE SABIA DEMAIS’ (TOMAS ALFREDSON, 2011)

Depois do sucesso com Deixe Ela Entrar, o sueco Tomas Alfredson foi fazer seu primeiro filme em inglês mostrando que não estava para brincadeiras, escolhendo adaptar o thriller de espionagem Tinker, Tailor, Soldier, Spy de John Le Carré, um dos mais célebres autores do filão, responsável por desconstruir o glamour de James Bond e mostrar um mundo de atmosfera depressiva, onde os serviços de Inteligência primam pela burocracia, onde a regra de sobrevivência é a solidão e o jogo duplo. Tendo Gary Oldman como o agente George Smiley e John Hurt como seu superior conhecido apenas por Control, o filme lida com as consequências do fracasso dos dois em uma operação e a suspeita de ambos de que o serviço de inteligência britânica tem um espião soviético infiltrado em suas fileiras. A razão de Hurt ser um ator completo pode ser muito bem atestada nesse filme: ele é expressivo tanto quanto está em um silêncio reflexivo, quando compartilha os pensamentos de sua mente afiada, quanto explodindo de raiva. Certamente, sem os talentos de Hurt, o filme não teria metade de sua atmosfera ambígua, na corda bamba entre melancolia e violência. Boa parte de um filme de ficção é seu casting, e nesse caso não foi diferente.


 

WAR DOCTOR EM ‘DOCTOR WHO’ (2013)

Criado para comemorar os 50 anos de existência da série cult exibida pela BBC, o Doutor da Guerra apareceu em três episódios como uma encarnação envelhecida do Doutor, um Senhor do Tempo renegado com um passado sombrio e questionável, às voltas com guerras em seu planeta de origem e o plano de um genocídio dos dois lados para acabar com essa guerra. Uma das encarnações mais sombrias do personagem, interpretado por Hurt aos 73 anos mas com o vigor de alguém bem mais jovem mas com a experiência que só a idade traz: as cenas com os Doutores mais jovens pegam fogo e, ao mesmo tempo, consegue representar um semblante atormentado em busca de uma redenção pelo enorme peso que carrega na consciência, funcionando igualmente em momentos mais cômicos e heroicos. Nunca artificial, sempre humano, complexo em seus defeitos e méritos: havia escolha mais acertada que John Hurt, o everyman da Inglaterra?

Seu último papel notável não foi seu canto de cisne (tem mais 14 créditos desde então), mas bem que poderia ser: fecha na nossa memória coletiva com chave de ouro uma carreira onde representou os mais variados espectros e possibilidades do caráter e da história humana. Definitivamente não era qualquer ator e nunca ter ganho um Oscar só mostra como tal premiação tem uma credibilidade um tanto questionável.

Mesmo com o consolo de cinco filmes seus ainda aguardarem estreia, a voz, a presença e a versatilidade vão deixar saudades.

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Sobre o autor

Bernardo Brum
Trooper (Crítico)

Estudante de Jornalismo e crítico de Cinema desde 2011. Alfred Hitchcock é o seu diretor preferido.