CRÍTICA | TOC - TRANSTORNADA OBSESSIVA COMPULSIVA
Direção
Roteiro
Elenco
Fotografia
Montagem
Enredo
4.3Pontuação geral
Avaliação do leitor: (1 Voto)

‘UM BELO HORIZONTE PARA O FUTURO DO CINEMA NACIONAL’

Já é uma realidade youtubers de sucesso migrando para a TV, enxergando um novo mercado a se explorar, que proporciona visibilidade além dos nichos da internet e expandindo possibilidades de ganhos. A exemplo disso, youtubers como Kéfera Buchmann e Christian Figueiredo já somam quase 20 milhões de inscritos somente em seus canais e viram uma ótima oportunidade em flertar com os mercados literário, da TV e cinema. A grande discussão levantada é: até que ponto são realmente produtores de bom conteúdo para essas novas empreitadas e como estão conseguindo lidar com o disputado mundo do show business?  

TOC – Transtornada Obssessiva Compulsiva se encontra justamente nesse cenário, onde Kika K. (Tatá Werneck) é uma celebridade da internet que migra para TV e é idolatrada por milhões de fãs. Em meio a todo o glamour do sucesso, as cortinas se abrem e revelam uma personagem em crise existencial, que não se sente segura com sua vida pessoal e profissional. Para agravar a situação, lida com sua implacável empresária Carol (Vera Holtz), com seu namorado doente por sexo Caio Astro (Bruno Gagliasso),  foge constantemente de um fã stalker Felipão (Luis Lobianco) e ainda de quebra convive diariamente com os problemas causados por seu TOC.

Apresenta de forma bem humorada o outro lado do rápido e devastador sucesso midiático.

Com o lançamento de seu livro de autoajuda, não escrito por ela,  recebe a visita do verdadeiro escritor que deixa um enigma para resolver e depois desaparece do mapa. Nesse cenário, ela conhece o atendente da livraria Vladimir (Daniel Furlan), que a ajuda na sua jornada para decifrar todo o mistério e resolver sua crise. Essas situações revelam grandes referências na construção do enredo, que apresenta de forma bem humorada o outro lado do  rápido e devastador sucesso midiático.

O enredo do filme teria tudo para dar errado e ser de grande mau gosto em abordar de maneira equivocada e extremamente caricata um problema que afeta cerca de 2% da população, segundo o Instituto Nacional de Saúde Mental dos Estados Unidos. Ao contrário, a abordagem do transtorno ficou em segundo plano como consequência dos conflitos da personagem principal em busca da sua felicidade. O roteiro escrito a três mãos, que incluí os também diretores do longa, Paulinho Caruso (Penas, 2012) e Teo Poppovick (Que Monstro te Mordeu?, 2014), além da protagonista Tatá Werneck (Loucas Para Casar, 2009), é bem escrito com diálogos inteligentes e humor que realmente faz rir, com um estilo nonsense sob forte influência do grupo de comédia britânico que surgiu no fim da década de 60, Monty Python.

Vera Holtz (Maresia, 2014) entrega o peso já característico de sua interpretação à personagem que é linha dura.

Caruso e Poppovick conseguem de maneira certeira utilizar a metalinguagem para trazer uma reflexão, onde o próprio Caruso afirma ser uma brincadeira em falar mal do filme, sendo uma crítica dentro do próprio longa. O caminho percorrido pelo roteiro se reflete em uma boa direção, que utiliza recortes de imagens viscerais e edições bem ritmadas, que lembram videoclipes da MTV dos anos 80, para, por exemplo, retratar os absurdos da mente transtornada da personagem  principal e tornando o produto final bem refinado e pop. Ainda é possível assistir ótimos planos, fotografia e locação em momentos alusivos a um cenário apocalíptico à la Mad Max: Estrada da Fúria (2015). Os diretores também souberam inserir de maneira bem equilibrada a participação dos personagens dentro da trama, brincaram com os clichês do nosso cotidiano com trilha sonora bem divertida e trabalham bem com atores de diferentes gerações.

Daniel Furlan (A Noite da Virada, 2014), funciona como um Samwise Gamgee de Kika K., para sua grande jornada.

A escolha do elenco foi muito acertada para todo o contexto do enredo e Tatá Werneck, que tem seguido carreira em novelas, encara sua primeira protagonista em um longa. Consegue interpretar bem um papel que faz parte da sua vida com um humor bem dosado. A atriz é ótima no improviso e por vezes pode fazer piadas em excesso, mas aqui foi inteligente em equilibrar bem os improvisos com o texto original, além de revelar sua veia dramática mostrando que pode encarar um gênero diferente ao da comédia. O sucesso da interpretação da protagonista pode ser um reflexo do elenco em volta, que tem a experiente Vera Holtz (Maresia, 2014) a qual entrega o peso já característico de sua interpretação à personagem que é linha dura, mas que demonstra um senso de proteção de uma leoa com sua pupila. Ainda tem o multifacetado Bruno Gagliasso, que encara de forma divertida e inusitada o namorado viciado em sexo.

Tatá Werneck revela sua veia dramática mostrando que pode encarar um gênero diferente ao da comédia.

Vale destacar a participação de Luis Lobianco, com seu personagem perseguidor, que acaba nos remetendo a lembrança de algum personagem que já encontramos em nossa vida e sem contar a participação essencial de Daniel Furlan (A Noite da Virada, 2014), que  com atuação bem fluída, funciona como um Samwise Gamgee de Kika K., sendo também o ponto de virada da personagem para sua grande jornada.

TOC – Transtornada Obssessiva Compulsiva é um filme sobre a busca da verdadeira felicidade, coragem em mudar de caminho para tal e uma cura interior brincando com o própria ignição de toda a trama que é o livro de autoajuda. Um filme de comédia dramática que surpreende pelo cuidado de toda a produção em meio a um cenário atual de comédias enlatadas, cumpre com o papel de entreter, inclusive com cena pós-crédito. Caruso e Poppovick apresentam um belo horizonte para o futuro do cinema nacional.

Ficha Técnica


TOC – TRANSTORNADA OBSESSIVA COMPULSIVA
Distribuidor/Produtora: Downtown Filmes, Paris Filmes
Gênero: Comédia Dramática
Classificação etária: 14 anos
Data de Lançamento:   2 de fevereiro de 2017
Tempo de Duração: 1h 48min
Direção: Paulinho Caruso, Teodoro Poppovic
Roteiro: Paulinho Caruso, Teodoro Poppovic, Tatá Werneck
Produção: Bianca Villar, Fernando Fraiha, Karen Castanho, Bruno Wainer, Paulinho Caruso, Tatá Werneck , Teodoro Poppovic, Bianca Villar, Eduardo Nasser
Trilha Sonora: Atli Örvarsson
Direção de fotografia: Pierre de Kerchove
Direção de arte: Fabio Goldfarb
Direção de produção: Renato Rondon
Figurino: David Parizotti
Caracterização: Tayce Valle
Montagem: Fernando Stutz e Marcelo Junqueira
Som direto: George Saldanha
Desenho de som: Daniel Turini e Fernando Henna
Mixagem: Paulo Gama

Elenco: Tatá Werneck (Kika K.), Vera Holtz (Carol), Bruno Gagliasso (Caio Astro), Daniel Furlan (Vladimir), Luis Lobianco (Felipão), Pedro Wagner (Arthur), Mario Gomes (Jamelão), Patricya Travassos (mãe de Kika), Luciana Paes (Ana Juliana), Laura Neiva (Menina do Sonho), Felipe Torres (Punk do Sonho), Fábio Marcoff (Biólogo), Ingrid Guimarães (Ingrid Guimarães).

SINOPSE:

Atriz e celebridade idolatrada por milhões de fãs, Kika K. (Tatá Werneck) entra em crise com sua vida profissional e pessoal, enquanto precisa lidar com as limitações de seu Transtorno Obsessivo Compulsivo.

 

Comentários

comentários