“ELAS FORAM LEVADAS À LOUCURA”

Com tudo para a repetição da fórmula dos filmes de bullying, como “Garotas Malvadas” (“Mean Girls”, 2004), “Perfeita é a Mãe” (“Bad Moms”, 2016) excede o assunto da rivalidade juvenil:  é uma amostra, em dose equilibrada, de até onde pode ser levado o dilema da mulher do novo século. A mãe que não tem tempo para trabalhar, cuidar dos filhos e ser uma boa esposa é o estereótipo escrutinado. Para alguns o longa é uma versão feminina de “Se Beber Não Case” (“Hangover”, 2009), com situações adjacentes ao absurdo.

Sem dúvida, o filme garante diversão ao espectador, com algumas cenas muito boas – como a ida ao supermercado – e um humor agridoce. Mila Kunis tem uma grande oportunidade para galvanizar sua filmografia, mas não é o filme que vá lhe render prêmios de Arte. A atriz, que tem filmes como “Cisne Negro” (“Black Swan”, 2010) e “Amizade Colorida” (“Friends with Benefits”, 2011) no currículo, encarna Amy, a jovem progenitora de dois infantes e uma esposa insatisfeita que acaba se envolvendo com o pai de uma coleguinha de seus filhos. Christina Applegate vive uma antagonista com muita sede de poder e dá seu toque especial, como sempre faz nos filmes de que participa, em uma trama bastante simples, mas que tem tudo para cair no gosto do público.

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Trata-se de uma comédia bastante viva, mas com tons de sentimentalidade; só para não dizer que não emocionou ninguém – uma Rom Com. A unidade familiar moderna é o tema e a grande estrela da história: “Estamos mimando ou negligenciando nossos filhos? Eu tenho o direito de pensar mais em mim e menos na minha família? Até que ponto eu devo ir na busca da perfeição? O que é ser uma boa mãe? Eu sou uma boa mãe?”. São as perguntas que os roteiristas e diretores, Jon Lucas e Scott Moore, tentam emplacar na bottom line.

O trabalho de Mila (Amy) e de Kathryn Hahn (Carla) é uma desconstrução do papel materno, juntando-se ao arquétipo da mulher subjugada, por Kirste Bell (Kiki). No núcleo oposto, Christina (Gwendolyn), Jadda Pinkett Smith (Stacey) e Annie Mumolo (Vicky) tornam a convivência nos corredores da escola de bairro tensa. Jay Hernandez (Jessie) é uma revelação, assim como David Walton (Mike, o esposo infiel), Clark Duke (Dale, o chefe relapso) e os atores mirins. Um elenco relativamente bem afinado consegue uma curva dramática bem executada, mesmo com conceitos e personagens de tão fácil entendimento. Vale a pena ressaltar que, dentro da interpretação realista, os atores parecem ter tido autonomia para criarem suas versões das máscaras sociais representadas; costuma ser fundamental para um bom aproveitamento dos artistas.

Elas foram levadas à loucura! Você vai experimentar uma proposta “ousadinha” de ver as mamães em situações de fúria, de fracasso, de incompreensão, de euforia, de tesão… Enfim, selvagens! Mas não se assuste, isso só dura até o capítulo II, quando a ponderação racional toma a cena e você é levado a considerar como uma mãe de família deveria realmente se comportar. Eles tiram sarro de tudo que está sedimentado no senso comum, como a superproteção, a permissividade, a acomodação dos filhos frente à adulação, ou a mãe control freak na reunião de pais. A sátira funciona, apesar de não introduzir essencialmente nada de novo no mundo do cinema.

A linguagem é bem livre e tem poucos filtros. A iluminação mantém o padrão Jon Lucas, valorizando bastante as figuras humanizadas e permitindo a quem assiste avaliar os poros de cada ator. A trilha sonora recorre a músicas bem conhecidas – algumas nos fazem nos mexer nas poltronas –, mas sem virtuosismo algum. Como já dito, o roteiro é bem simples, quase similar a outros que o cinema americano já forjou, mas lembramos que o segredo está nas filmagens, e essas parecem ter sido exitosas e divertidas para a equipe, que teve com o que se identificar.

As atrizes se divertem nos bastidores e em entrevistas, gozando suas relações com seus filhos e o ideal ao qual todas querem chegar. Espere até os créditos, pois o diretor reservou um momento bem particular das atrizes principais, como a cereja do bolo.

Ficha Técnica

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PERFEITA É A MÃE (Bad Moms)
Distribuidor/ Produtora: Diamond Films
Gênero: Drama, Romance
Classificação Etária: 10 anos
Data de Lançamento:  11 de agosto de 2016
Tempo de Duração: 1h 38min
Direção: Lucas e Scott Moore
Roteiro:
Jon Lucas e Scott Moore
Produtores:
Suzanne Todd e Bill Block
Trilha Sonora:
Christopher Lennertz
Fotografia:
Jim Denault

Elenco:
Mila Kunis (Amy Mitchell), Kristen Bell (Kiki), Kathryn Hahn (Carla Dunkler), Jay Hernandez (Jessie Harkness), Annie Mumolo (Vicky Latrobe), Jada Pinkett Smith (Stacy), Christina Applegate (Gwendolyn James), Emjay Anthony (Dylan).

Sinopse
Uma mulher (Mila Kunis), com uma vida aparentemente perfeita – bom casamento, filhos exemplares, ótimo emprego, etc – acaba ficando estressada além do ponto com as obrigações de sua vida. Cansada desse estado, ela se une a duas outras mulheres (Kathryn Hahn e Kristen Bell) que passam pelos mesmos problemas que ela para sair em uma jornada de libertação.

CRÍTICA | PERFEITA É A MÃE
Roteiro
Diereção
Elenco
Fotografia
Trilha Sonora
3.5Pontuação geral
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Sobre o autor

Felipe Mury
Trooper (Crítico)

Bacharel em Direito pela UFRJ e ator formado pela Casa de Artes de Laranjeiras. Amante do bom teatro e cinéfilo das horas vagas. Gosta de séries de TV com roteiros que ressaltem relações humanas, tais como GIRLS e The Big Bang Theory. Fascinado por Shakespeare, Oscar Wilde e Berthold Brecht e seguidor do trabalho de Woody Allen, Quentin Tarantino, Martin Scorcese, James Cameron, Steven Spielberg, Almodóvar e Lars von Trier.