CRÍTICA | JOHN WICK - UM NOVO DIA PARA MATAR
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Roteiro
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Montagem
Cenografia/Figurino
Trilha Sonora/Edição de Som
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‘UM MÁGICO REPETINDO OS MESMOS BONS TRUQUES COM UM ORÇAMENTO MAIOR’

De Volta ao Jogo surpreendeu todo mundo lá em 2014. Amparado por um elenco de luxo, Keanu Reeves sob a direção de Chad Stahelski (Jogos Vorazes – Em Chamas, 2013) foi protagonista de um cult instantâneo sobre um lendário assassino aposentado que, enquanto está em luto por sua esposa morta, é assaltado pelo filho de um chefão da máfia russa que mata seu cachorro e leva seu carro, saindo em uma caçada frenética até obter sua vingança.

O filme tinha um pano de fundo carismático, onde organizações criminosas e assassinos profissionais viviam sob um rígido código de honra, com hotéis servindo de fachada como terrenos neutros de negócio do submundo. Tal universo agora é ainda mais explorado, sendo a força motriz da trama onde o mortal John Wick é obrigado por um chefão da máfia italiana a exterminar um último alvo por causa de uma antiga dívida.

Espectro que insiste em continuar andando, que renega à sua essência para facilmente ceder à mesma assim que tiver a oportunidade.

John Wick – Um Novo Dia Para Matar é uma sequência que, se não arrisca, também não deixa a bola cair. Pelo contrário, na verdade; o filme reduz a trama ao mínimo e concentra toda a sua resolução em cenas de ação elaboradamente coreografadas. Stahelski tem ambições estéticas acima do produto enlatado e, mesmo dirigindo um filme comercial, pesa a mão em longas sequências com a câmera seguindo os longos tiroteios e, nos momentos centrais do filme – o assassinato de uma antiga amiga e o clímax onde busca sua vingança em um museu de arte moderna – elabora um bem pensado jogo de cortes que confirma ainda mais a impressão de que o protagonista seria o Bicho-Papão, apelido frequentemente citado no roteiro.

Não é em todo filme de ação que veremos a carga emocional da antiga amiga, cujo próprio irmão ordenou o assassinato para assumir sua cadeira na alta cúpula do conselho mundial das organizações criminosas. Filmado nas catacumbas de uma milenar construção de Roma, a direção de arte carrega ares megalômanas, com os movimentos de câmera e montagem econômicos, assim como os diálogos austeros, onde os personagens falam pouco mas dizem muito.

Impagável pequeno papel de Laurence Fishburne (Matrix , 1999) como um líder de uma organização de assassinos que se disfarça de mendigos.

Por sua vez, o clímax do filme no Museu se dá em uma sala de espelhos em uma clara referência de A Dama de Shanghai (1948),  de Orson Welles. No clássico em preto e branco, o genial Welles confundia nossa percepção espacial cortando entre tiros e reflexos, sugerindo o mundo distorcido e à beira de um colapso que o protagonista enfrenta no momento. Já em Um Novo Dia Para Matar, o antagonista de Wick some em meio aos espelhos, portas automáticas e a sensação labiríntica das falsas saídas e esfrega a natureza do personagem principal em seu rosto, por mais que o mesmo insista em negar: a de que matar pra ele não é uma profissão, mas uma paixão. Wick é um Bicho-Papão relutante, que veste suas roupas negras e empunha suas armas achando que isso trará uma redenção para suas angústias, mas só o aproxima cada vez mais do limite. Não à toa que Wick não olha para os espelhos e persegue apenas o objeto de seu ódio: por um breve momento, ao ver os reflexos distorcidos da alma de Wick, ele vence ao expô-lo. Até, é claro, o irrefreável Bicho-Papão alcançá-lo, mais cedo ou mais tarde.

Wick é um agente da morte, vive em função dela. Por mais que tente abandonar, é a essência de Wick – e talvez de todos os heróis de ação truculenta: Rambo, John Matrix, Braddock, John MacLane… Todas as suas sagas se assemelham,  de uma forma ou de outra. Se Wick está de preto, é porque é um espectro que insiste em continuar andando, que renega à sua essência para facilmente ceder à mesma assim que tiver a oportunidade. Stahelski revê todos os clichês de gênero – tiroteios, impasses, colisões e explosões – enquanto seu protagonista pula de sequência em sequência entre cortes rápidos ou longas sequências como se se estivesse entre fases de um videogame.

John Wick – Um Novo Dia Para Matar honra o original e rende uma sessão dupla de atordoar olhos e ouvidos com suas sequências escalafobéticas de ação.

Recheado de participações especiais, como o impagável pequeno papel de Laurence Fishburne (Matrix , 1999) como um líder de uma organização de assassinos que se disfarça de mendigos – pelo jeito, há mais assassinos profissionais que civis no universo de John Wick – que, referenciando de forma cômica seus dias e de Reeve quando sentavam no trono do cinema mundial com a trilogia cyberpunk Matrix em um tributo ao gênero de cinema que não cansa de saturar e renovar John Wick – Um Novo Dia Para Matar honra o original e rende uma sessão dupla de atordoar olhos e ouvidos com suas sequências escalafobéticas de ação. Carece e muito de ineditismo, é verdade, e talvez se não fosse tão preocupado em repetir os êxitos do anterior seria mais bem sucedidos. Mas por mais que seja dependente, méritos próprios não faltam. Que os criminosos tremam nas bases, pois o Bicho Papão ainda respira.

Ficha Técnica


JOHN WICK – UM NOVO DIA PARA MATAR (John Wick: Chapter Two)
Distribuidor: Paris Filmes
Gênero: Ação
Classificação Etária: 16 anos
Data de Lançamento:  16 de fevereiro de 2017
Tempo de Duração: 2h e 03 minutos
Direção: Chad Stahelski
Roteiro: Derek Kolstad
Produção: Basil Iwanyk, David Leitch, Kevin Scott Frakes, Chad Stahelski
Trilha Sonora: Tyler Bates, Joel J. Richard

Elenco: Keanu Reeves (John Wick), Common (Cassian), Laurence Fishburne (Rei), Riccardo Scamarcio (Santino D’Antonio), Ruby Rose (Ares), Lance Reddick (Charon), John Leguizamo (Aurelio), Ian McShane (Winston).

Sinopse:

John Wick (Keanu Reeves) é forçado a deixar a aposentadoria mais uma vez por causa de uma promessa antiga e viaja para Roma, a Cidade Eterna, com o objetivo de ajudar um velho amigo a derrubar uma organização internacional secreta, perigosa e mortal de assassinos procurados em todo o mundo.

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Sobre o autor

Bernardo Brum
Trooper (Crítico)

Estudante de Jornalismo e crítico de Cinema desde 2011. Alfred Hitchcock é o seu diretor preferido.