Ainda há muito que dizer sobre Janis

O fato sobre documentários é que não produzem histórias sobre personagens ordinários. Janis: Little Girl Blue é o exemplo disso. Janis Joplin é uma personagem extraordinária. Sua idade, sua época e sua música estão muito além do estigma das mortes dos rockstars de 27 anos, ainda que por aleatoriedade ela pertença a esse grupo.

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Janis Joplin muito além da sua época

Ao adotar o Blues, o Folk e o Rock, Joplin criou a si mesma longe dos olhos de sua família. No Blues, encontrou o sentimentalismo, a dor de amar tanto e de não pertencer a qualquer lugar, exceto à música. No Rock, encontrou a expressão física, o suor, os movimentos. Foi assim, que se tornou um híbrido de características dos dois estilos, roubando-os e transformando-os em seus.

É uma pena que a escolha de exposição da diretora Amy J. Berg, conhecida por Deliver us from Evil, que concorreu ao Oscar de Melhor Documentário de Longa-Metragem em 2007, seja exatamente o espectro da primeira imagem de contato que o público médio tem da cantora: Anos 60, drogas, quebradora de regras, morte prematura e gritos, muitos gritos. Felizmente, essa escolha é feita por um motivo maior, que, nesse caso, foi apresentar (e, de certa forma, reafirmar) a “ambição por amor” e os sentimentos extremados de Joplin como objetivo de vida. De toda maneira, a construção de Janis, no que ela se tornou, não durou mais que dez minutos, servindo apenas como forma de contexto cultural.

Logo depois, o depoimento de Jae Whitaker, namorada de Janis em 1963, dita o tom da mensagem: “Para ela, estar no palco a fazia se sentir alguém que tinha algo a oferecer”. O filme, então, passa a louvar os anos 60 com a Big Brother and the Holding, banda que a levou ao auge do sucesso da geração flower power, e quando Janis se apresentou no Monterey Pop Festival em 67, no Festival de Woodstock em 69, no Festival Express em 70 e até no carnaval do Brasil também em 70.

Janis se apresentou em vários festivais nos anos 60

Janis se apresentou em vários festivais nos anos 60

Parece que o desejo da diretora era o de um road movie que jamais poderá existir, deixando pouco espaço para a arma mais poderosa da cantora: a voz. Mesmo com o pouco espaço que teve, Janis o usou com toda sua força. Enquanto a própria dizia aos familiares e aos entrevistadores que o palco era sua razão de existir, o próprio filme a deixa afastada de seu lugar preferido. É quando ele aparece que a genialidade é mostrada de fato. Ponto para Janis, não para o roteiro. Outra presença que tenta passar despercebida é a narração de Cat Power das cartas de Janis à família e aos amigos. Até nos créditos o nome artístico some, dando lugar à Charlyn Marshall, seu nome verdadeiro. As cartas, um dos pontos altos do longa, são feitas de provas da argumentação das histórias contadas, narrando em primeira pessoa sua honestidade emocional, transformando-a em arte, em música e em voz.

Para os 45 anos de morte da cantora, o documentário pode passar facilmente por um registro feito para TV com o mecanismo típico de depoimentos, fotos de arquivo, gravações de depoimentos da própria artista, entrevistas em talk shows e algumas apresentações. Porém, a competência de um trabalho de pesquisa, edição bem feita e direção um pouco mais experiente não passam despercebidas. Nesse aspecto, as semelhanças com o famoso e premiado Amy (2014) são fortíssimas, influenciadas também pelas semelhanças entre as famosas: a atração pelos palcos, a vida amorosa movimentada, o vício, os excessos, a solidão e a busca pela adoração. A maior diferença foi ter deixado de fora alguns sucessos de Janis Joplin.

O documentário é um bom registro de Joplin

O documentário não prioriza Joplin nos palcos

A pergunta feita no começo do filme, respondida ali mesmo no primeiro ato, se torna uma extensa explicação de 103min. O que não é ruim, afinal, há coerência no roteiro, porém não é o suficiente para torna-lo definitivo. A lição aprendida é: enquanto a cantora estiver no palco, ela estará bem.

 

Ficha Técnica

Janis 1-Sheet final.inddJANIS: LITTLE GIRL BLUE
Distribuidor/Produtora:  Zeta Filmes
Gênero: Documentário, Biografia
Classificação Etária: 14 anos
Data de Lançamento: 23 de Junho de 2016
Tempo de Duração: 1h 43min
Direção: Amy J. Berg
Roteiro: Amy J. Berg 
Narração: Cat Power
Fotografia: Francesco Carrozini
Elenco: Janis Joplin, Peter Albin, Sam Andrew, Dick Cavett, David Dalton, Clive Davis, Cass Elliot, Melissa Etheridge, Dave Getz, Jimi Hendrix, Kris Kristofferson, John Lennon, Country Joe McDonald, Alecia Moore, Dave Niehaus, Powell St. John, Bob Weir

Sinopse: 
Janis Joplin foi um dos ícones mais influentes do rock de todos os tempos, mas sua marca na cultura mundial vai muito além. Ela inspirou uma geração e abriu portas para roqueiras do mundo inteiro que surgiram depois. Acima dos turbulentos casos amorosos e vícios, estava seu profundo comprometimento com sua música, até sua morte repentina aos 27 anos. Neste documentário, a própria Janis narra sua história através de cartas que escreveu para a família, amigos e amores.

Crítica | Janis: Little Girl Blue
Direção
Roteiro
Fotografia
Montagem
Trilha Sonora
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