MAIS UM FILME IRREGULAR DA FASE MAIS IRREGULAR DE ALLEN

Muitos se perguntam, como se fosse um mistério, como Woody Allen faz para filmar um novo filme todo ano. Apesar da regularidade ser realmente algo que não é visto todo dia, não é o maior dos mistérios.

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Wody Allen continua dirigindo um filme por ano

Woody Allen conseguiu conquistar um esquema “jogo ganho” onde seus filmes, numa determinada época, eram literalmente o melhor que o cinema norte-americano poderia oferecer: direção transgressora moderna e ousada, roteiros com o fino da narrativa e do diálogo contemporâneo e os melhores entre melhores profissionais para trabalhar com ele – os melhores atores, os melhores diretores de fotografia, os melhores cenógrafos e figurinistas.

Olhando em retrospecto, o homem que foi catapultado para a fama ao assinar “Noivo Neurótico, Noiva Nervosa” conseguiu manter-se original e carregar ineditismo enquanto muito de seus colegas (Coppola, Scorsese, Friedkin) se equilibravam entre fracassos e sucessos de público e crítica: obras-primas como “Manhattan”, “Zelig”, “A Rosa Púrpura do Cairo”, “Hannah e Suas Irmãs”, “A Era do Rádio”, “A Outra e Crimes” e “Pecados” saíram em um curtíssimo espaço de tempo.

Hoje em dia, trabalhar com Woody Allen é uma distinção. É a ambição de todo ator que inspira reconhecimento crítico, tanto os jovens que estão se firmando quanto os já famosos que querem se desvencilhar de um estereótipo. Quem poderia aspirar maior distinção de ser uma lenda viva? Mas ao mesmo tempo, cedo ou tarde, isso também virou um “tiro no pé” para Woody Allen.

Kirsten Stewart, Jesse Eisenberg estão no elenco do filme

Atores mais novos ambicionam filmar com Allen

Quando filmou Match Point em Londres e, emplacando um hit para além de sua base de fãs conseguindo superar uma fase de filmes considerados abaixo da média (como O Escorpião de Jade e Dirigindo no Escuro), Woody pareceu crescer ainda mais, tornando-se um diretor de grife, com produtoras internacionais investindo para serem o “cartão postal” de seus filmes – depois disso tivemos Londres novamente como o cenário do dramático “O Sonho de Cassandra” a romântica Barcelona como o background de Vicky Cristina Barcelona, a carismática Roma em “Para Roma, Com Amor” e a nostálgica e iluminada Paris em “Meia-Noite em Paris”.

Ao mesmo tempo, ao lado desses “box-office” começaram a despontar projetos sem a mesma força ou sem o mesmo acabamento. Ainda que acerte em cheio de vez em quando – com a tragicomédia “Tudo Pode Dar Certo” e o pesado drama “Blue Jasmine” – também começaram a aparecer filmes como “Você vai conhecer o Homem dos Seus Sonhos”, “Magia ao Luar” e “O Homem Irracional”, que conseguem explicar um pouco a situação de “Café Society”.

Homem Irracional foi o ultimo filme de Woody Allen

Homem Irracional foi o ultimo filme de Woody Allen

Quando convenciona-se a chamar Woody Allen de “autor” é por causa de uma noção criada pelos críticos da Cahiers de Cinema que virariam diretores e criaram a Nouvelle Vague, a “política dos autores”, onde o filme considerado como uma criação do seu diretor carregaria um potencial artístico além do mero produto industrial. Mas atente ao primeiro substantivo: “política”, empregado para reforçar a noção de que estaria criando-se algo socialmente relevante com sua arte. Em Hollywood, isso floresceu por uma época – Francis Ford Coppola vasculhou os interiores sombrios da alma humana, Scorsese filmou ruas sujas e violentas e Woody Allen remexeu como ninguém a psique da classe média contemporânea.

Não é o que se vê hoje. Woody Allen atualmente trabalha com o “jogo ganho” acima mencionado, e sua autoria hoje viraram basicamente filmes de “autor”, em tudo de conformado no que isso traz: uma coleção de cacoetes repetidos para atrair a base de fãs continuamente.

Explorando a ascensão de um jovem de origem proletária e família judia na alta-roda novaiorquina e sua desilusão amorosa quando tenta a vida em Hollywood como assistente para o seu tio, a recriação de Woody Allen dos Estados Unidos e seu charme, suas questões e problemas sociais da década de trinta – época do glamour, da burguesia, mas também dos gângsteres, do Pós-Depressão, do entre-guerras – é um dos seus filmes com mais ritmo e humor fluido em algum tempo.

Sentado no trono do circuito dos filmes “cult”, muitas de suas últimas obras pareciam incompletas, com narrativas que pareciam “jogadas”, terminadas de maneira preguiçosa e sem alcançar grande desenvolvimento ou profundidade. Poderia ser objetivo de algumas, como “Para Roma Com Amor” que não se propunha a mais do que alternar entre comédia romântica, sátira e humor nonsense, mas filmes como “Você vai conhecer…” e “O Homem Irracional” traziam referências vazias, situações repetitivas para os que conhecem sua filmografia e uma misé-en-scene pobre, desleixada, apostando no plano-contraplano, sem nenhuma transição fluida ou raccord que indiquem um processo cerebral mais empenhado, assim como tanto as referências literárias, musicais e filosóficas nos diálogos e a música, onde o jazz e a música clássica pareciam cada vez mais “aleatórias”, jogadas em cena sem nenhuma razão além de, naturalmente, ser um filme do Woody Allen.

A razão tem de ser a contrária –  há de ser um filme antes de ser um filme de Woody Allen. No controle da misé-en-scene, o diretor tem de saber controlar o espaço, o tempo, o afeto que os diálogos, interpretações, músicas e composições imagéticas irão causar – e apostar no cacoete para que o artista seja reconhecido ali talvez seja o tipo mais vazio de emoção para se ter assistido um filme.

Ainda que aqui ele tenha tido um pouco mais de cuidado – com os personagens de Jesse Eisenberg e Kristen Stewart repetindo a química que deu certo em “Férias Frustradas de Verão” e Steve Carrell parecendo engraçado e fútil, mas também sentimental e conflituoso. A música, se não nos afeta ou emociona tanto, é bem utilizada como pano de fundo para dizer o mínimo. E a última cena, em si, mostra uma sabedoria em utilizar recursos simples para alcançar resultados expressivos, merecendo uma atenção especial.

Steve Carrell é um personagem engraçado e fútil, mas também sentimental e conflituoso

Steve Carrell é um personagem engraçado e fútil, mas também sentimental e conflituoso

Mas ainda não é o suficiente. O que sacrificou a qualidade de alguns dos últimos filmes de Woody Allen ainda está ali – como vários personagens que só servem para marcar uma transição ou explicitar algum aspecto da vida do personagem – como a esposa-troféu do protagonista, interpretada por Blake Lively, ou personagens como seus familiares. Ainda que alguns sejam especialmente hilários e cumpram essa função, outros como a irmã casada com um intelectual ocupam considerável tempo de tela com desenvolvimento insatisfatório. Além dos personagens de Eisenberg, Stewart e Carrel, todo o resto parece jogado ali, com o filme sempre se apressando para chegar ao ponto das cenas interessantes, onde o que seria a “barriga”, o tempo morto, não recebe o mínimo trabalho para ser considerado interessante.

Woody Allen parece literalmente filmar qualquer roteiro que consegue terminar – bom ou não, retrabalhado ou não, com alguns alcançando um ótimo resultado e prologando sua carreira e outros denotando um cansaço temático onde seus temas parecem estar esvaziados, o que faz muitos filmes parecerem apenas feitos com a obrigação de se terminar uma nova obra todo ano e manter o nome Woody Allen ativo na indústria.

De tão enfatuado pela história de “como ele consegue ser prolífico e manter a qualidade?”, filmes como esse e a “Magia ao Luar” transparecem certa preguiça, de mágico repetindo os truques sem muito entusiasmo enquanto guarda na manga sua energia para apenas alguns trabalhos. Com altos e baixos se equiparando nos últimos dez anos de sua carreira, o artista Woody segue um caminho curioso, emplacando tanto excelentes comédias e impactantes dramas com filmes “ruim das pernas”, sem novidade alguma.

Filmes como esse e Magia ao Luar transparecem certa preguiça do autor

Filmes como esse e Magia ao Luar transparecem certa preguiça do autor

Com muitos filmes revelando um potencial nunca transcendido, o mais prejudicado acaba sendo mesmo o produto final. Café Society, para os íntimos de seu trabalho – antigo, recente, ambos – pouco parecerá além de uma simpática colcha de retalhos.

Muitos ao saírem das cabines costumam dizer que “bem, é o típico Woody Allen, não?” Mas o próprio deveria ter essa consciência que “time que está ganhando” se mexe sim, “jogo ganho” é uma farsa (rentável, mas farsa) e que o seu típico nem sempre é bom.

Ficha Técnica

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CAFÉ SOCIETY
Distribuidor/ Produtora: Imagem Filmes
Gênero: Comédia/Romance
Classificação Etária: 12 anos
Data de Lançamento:  04 de agosto de 2016
Tempo de Duração: 2h 10min
Direção: Woody Allen
Roteiro: Woody Allen
Produtores: Stephen Tenenbaum, Edward Alson, Letty Aronson
Design de Produção: Santo Loquasto
Fotografia: Vittorio Storaro

Elenco:
Steven Carrell, Jesse Eisenberg, Kirsten Stewart, Blake Lively, Sheryl Lee

Sinopse:

Um garoto judeu do Bronx chega em Hollywood para trabalhar para o seu tio, um poderoso agente de celebridades, e se apaixona por sua secretária. De volta a Nova York, começa a aprender os meandros para ascender na glamourosa vida noturna dos anos 30.

CRÍTICA | CAFÉ SOCIETY
Direção
Roteiro
Elenco
Fotografia
Cenografia
Trilha Sonora
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