UMA HISTÓRIA DE ÓDIO, VINGANÇA, REDENÇÃO E AMOR

Sempre recebo com desconfiança o anúncio de um remake, porque na maioria dos trabalhos apresentados fica muito aquém do original, se perde no mar do esquecimento e fica a sensação de ser um caça-níquel. Quando o filme é simplesmente um épico indicado em 12 categorias do Oscar e ganhador de 11 estatuetas o receio é ainda maior. Ben-Hur (1959), que teve William Wyler (Infâmia – 1961) na direção e Charlton  Heston (Planeta dos Macacos – 1968) como protagonista, é um épico que marcou e revolucionou o cinema na época, ainda é referência na categoria e quando Hollywood assume esse risco, fica muito difícil não comparar a nova versão com a de 1959.

Ben-Hur (2016), dirigido por Timur Bekmambetov (Abraham Lincoln: Caçador de Vampiros – 2012) apresenta a relação entre o príncipe hebreu Judah Ben-Hur (Jack Huston) e seu irmão adotivo o capitão do exército romano Messala (Toby Kabbell), em uma época onde o Império Romano dominava o mundo. Assim como a película da década de 50, Messala acusa Judah de traição e condena sua família adotiva à morte e Judah à escravidão. Movido pelo ódio, o príncipe hebreu sobrevive aos anos de tormento, consegue escapar da morte e retorna à sua terra natal em busca de vingança, mas com um desenvolvimento e final diferentes ao clássico de Wiler.

Jack Huston como o escravizado Judah Ben-Hur

Jack Huston como o escravizado Judah Ben-Hur

O roteiro é assinado por Keith Clarke (Caminho da Liberdade – 2010) e John Ridley (12 Anos de Escravidão – 2013), que utilizam a narrativa circular para contar uma história de ódio, vingança, redenção e amor. A essência original do épico estrelado por Heston foi alterada, o roteiro tem alguns pontos questionáveis, principalmente em seu final, mas que dentro da real proposta funciona para atualidade e que provavelmente agradará ao público que optar por não se prender a comparações ao clássico. Acredito que seria bem mais positivo a utilização de outro nome para o filme. Carregar o nome “Ben-Hur” é extremamente complicado e o trabalho do roteiro e direção precisa ser bem mais minucioso. Falando de direção, acredito que esse seja o ponto mais fraco do filme, porque reflete em vários problemas.

Bekmambetov contrasta bons e maus momentos em Ben-Hur. As cenas de ação são bem intensas, mas abusou demais da movimentação estilo câmera na mão. A pouca estabilização da imagem acaba causando um pouco de incômodo e fica um pouco complicado contemplar o todo. O tratamento dado ao elenco foi algo que realmente ficou devendo, porque não tem como não comparar a força das personagens dos dois filmes. Isso fica mais claro justamente com o ator que interpreta o personagem principal.

Rodrigo Santoro interpreta bem Jesus Cristo

Rodrigo Santoro interpreta bem Jesus Cristo

Jack Huston (Trapaça – 2013) faz um trabalho justo, mas não tem a mesma intensidade da interpretação de Charlton  Heston, que ganhou o Oscar de melhor ator. Judah é movido pelo ódio e se recusa a se entregar à morte, mas não consegue transmitir essa vontade de viver de foma mais verídica. Fica claro que foi um problema de direção, que falhou também na transformação física do personagem. Judah passou anos de escravidão, não comia e nem dormia direito, o ator precisava ter perdido mais peso e apresentar uma personagem mais fraca fisicamente.  Toby Kabbell (Warcraft – O Primeiro Encontro de Dois Mundos – 2016, Príncipe da Pérsia: As Areias do Tempo – 2010), interpreta Messala de foma cômoda, apresentando um antagonista conflituoso e por algumas vezes fica a sensação que a personagem é mais forte que o protagonista. Isso possa ser por sua experiência com personagens parecidos que já interpretou.

Morgan Freeman é a grande estrela desse filme e traz toda sua experiência e já  conhecida interpretação ao personagem Ildarin, um africano (assim que é tratado no filme), que lidera uma equipe de bigas e ajuda Ben-Hur em seu plano de vingança. A força feminina tem ganhado cada vez mais destaque nos filmes de Hollywood e dentro da essência do filme, Nazanin Boniadi traz uma Esther, esposa de Judah, mesmo após anos de sofrimento, uma personagem forte, mas cheia de compaixão consequência de seu convívio com a mensagem de Jesus em meio aos tempos difíceis da época. Tenho que destacar a interpretação de Rodrigo Santoro, que mesmo com uns furo de direção da personagem, chegando a ser um pouco piegas no ato final, domina  as cenas em que aparece e carrega o peso da mensagem do filme.

Morgan Freeman e Jack Houston em cena

Morgan Freeman e Jack Houston em cena

Voltando para a direção, os personagens não foram tão bem desenvolvidos e os conflitos  foram tratados de forma muitos rasos. A Edição foi bem executada, Figurino e Maquiagem foram um show a parte e a Fotografia de Oliver Wood (Tudo Por um Furo – 2013) acompanha as nunces, principalmente com modificação de paleta de cores, bonita, mas foi nada de espetacular. Agora um ponto que foi um erro inquestionável. A Trilha Sonora prejudicou o filme e no ato final foi terrível. A ideia era transformar um épico em um filme mais pop, mas até aí colocar uma música que parece ter saído da série Crepúsculo foi demais. Épico pede uma trilha épica e o diretor permite uma música pop em seu fim? Não funciona!

Ben-Hur (2016) não é um filme ruim, mas deveria ter outro nome, porque só flerta com o clássico ganhador de vários Oscars (o filme Gladiador (2000) tem muito mais de Ben-Hur e não carregou esse nome). Apesar de não gostar do final dado pelos roteiristas e diretor, o filme consegue passar sua mensagem e chega a emocionar, porque se torna bem relevante para o momento de tanta intolerância que permeia o nosso dia a dia. Infelizmente, pode ficar na lista de mais um caça-níquel de Hollywood, um obra que poderia ter o seu próprio nome, não carregar tanta comparação e ter maior relevância para os dias atuais.

Ficha Técnica

BEN-HUR (2)BEN-HUR (Ben-Hur)
Distribuidor/ Produtora: Paramount Pictures
Gênero: Ação/ Aventira / Épico
Classificação Etária: 14 anos
Data de Lançamento:  18 de agosto de 2016
Tempo de Duração: 2h 03min
Direção: Timur Bekmambetov
Roteiro: Keith Clarke, John Ridley
Produtores: Sean Daniel, Roma Downey, Keith Clarke, John Ridley, Mark Burnett
Montador: Richard Francis-Bruce, Bob Murawski
Fotografia: Oliver Wood

Elenco:

Jack Huston (Judah Ben-Hur), Morgan Freeman (Ildarin), Toby Kebbell (Messala), Rodrigo Santoro (Jesus Cristo), Nazanin Boniadi (Esther), Pilou Asbæk (Pôncio Pilatos), Ayelet Zurer (Naomi), Marwan Kenzari (Druses).

Sinopse:

É a história épica de Judah Ben-Hur, um príncipe falsamente acusado de traição por seu irmão adotivo Messala, um oficial do exército romano. Destituído de seu título, afastado de sua família e da mulher amada, Judah é forçado à escravidão. Depois de muitos anos no mar, Judah retorna à sua pátria em busca de vingança, mas encontra a redenção.

CRÍTICA | BEN-HUR (2016)
Roteiro
Direção
Elenco
Fotografia
Montagem
Trilha Sonora
2.8Pontuação geral
Avaliação do leitor: (1 Voto)

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