NO MOMENTO CERTO E NA HORA CERTA

Aquarius é o caminho ideal para o cinema brasileiro. Atende às necessidades de personalidade, referências, conflitos e história, inclusive a própria do cinema nacional personificada em Sônia Braga. Maduro, o filme de Kléber Mendonça Filho, como todo bom filme, é plural. Com ajuda do cenário da praia de Boa Viagem, em Recife, a capilaridade da narrativa da construção da memória de Clara (Sônia Braga) está registrada em três atos, similares ao último ótimo trabalho do diretor, O som ao redor (2012). A assinatura pesada de Kléber nos dois longas é pautada na relação opressora e aterrorizante, porém acolhedora a qual o ambiente submete seus personagens.

Inteligência do roteiro coerente contrabalanceia a exposição da vida de Clara (Copyright SBS Distribution)

Vivendo com sua empregada no prédio de frente para praia, porém inabitado desde que a empresa de Diego (Humberto Carrão) comprou todos os outros apartamentos na esperança de revitalizar o local, Clara se recusa a deixar seu imóvel e trazer abaixo suas memórias. Do fundo do baú de Clara, os fantasmas que rodeiam e assombram o edifício Aquarius são bem camaradas. Na verdade, são neles que ela se apoia ao enfrentar a batalha de resistência solitária contra a especulação imobiliária canalizada em Diego.

Primeiramente, a escolha da musa que norteia o filme não é um acaso, muito menos uma falha. Seria um desafio tomar conta de um filme que se trata de registros acontecendo simultaneamente com a observação dos espectadores. Antes mesmo de entendermos os motivos para tanto apego, constrói-se o afeto cena pós cena (talvez por isso o filme seja um pouco maior do que o necessário), mesmo que seja essencial voltar vinte anos no passado ou mais que isso, e demarcar em todo tipo de objeto a importância dos momentos e suas mudanças. Sônia Braga é competente, forte e delicada. Ela usa Clara para nos fazer acreditar em sua fragilidade e sua força, no seu crescimento e suas dores. O espectador é o disco que Clara grava suas memórias uma a uma. Foi preciso a potência de Sônia para que, sem esforço ou dispersão, os pequenos sinais fossem mostrados um a um. Um trabalho de excelência.

Copyright SBS Distribution

Sônia Braga e Irandhir Santos (Copyright SBS Distribution)

As memórias não são desassociadas da privacidade. Ao lidar mais uma vez com a privacidade, o diretor torna o ambiente aconchegante. Parece um abraço, um ombro amigo para os problemas típicos da particularidade da idade: sexualidade, rejeição, confronto de geração, o passado vivo. Já o presente é colocado da porta para fora, deixado lá para não poluir o que foi construído. É um ato de respeito corporal com o apartamento.

A inteligência do roteiro coerente contrabalanceia a exposição da vida de Clara e analogias diretas com a história do edifício. O que poderia ser óbvio é colocado em segunda camada das muitas que vemos em tela e, principalmente, do que ouvimos: a trilha sonora é tão personagem quanto todos os humanos que transitam por lá, nunca aparece de graça, é sempre uma composição do emocional ou de movimento da narrativa. Um trabalho notório e acima da média.

Não é fácil atender a tantas quebras de expectativas sem gerar polêmicas e pessoas indo para casa no meio da sessão. Fora do óbvio, as sucessivas quebras de expectativas são pontuais desde o comecinho da história. Parece que há sempre uma barreira nova que aceitamos o que há por vir. Aquarius está no lugar certo e na hora certa. Na falha, tenta recorrer sempre ao maior espectro possível de representação dos inúmeros cenários e realidades brasileiras, como se pudesse encontrar tudo em uma só pessoa e em uma só história. Se essa era a questão, Aquarius antes mesmo de se preocupar com a coletânea de questões políticas, já era muito plural por ser o que é. Afinal, não é disso que são feitas as boas histórias?

Ficha Técnica

aquarius-3
AQUARIUS  (2016)
Direção: Kleber Mendonça Filho
Roteiro: Kleber Mendonça Filho
Data de lançamento: 1 de Setembro de 2016
Gênero: Drama, Suspense
Classificação: 18 anos
Duração: 2h 25min
Produção: Emilie Lesclaux, Saïd Ben Saïd e Michel Merkt
Fotografia: Pedro Sotero e Fabricio Tadeu
Direção de Arte: Juliano Dornelles e Thales Junqueira

Elenco:
Sônia Braga (Clara), Humberto Carrão (Diego Bonfim), Maeve Jinkings (Ana Paula), Irandhir Santos (Roberval), Allan Souza Lima (Paulo), Bárbara Colen , Julia Bernat (Julia), Germano Melo (Martin), Pedro Queiroz (Tomáz)

Sinopse:
Clara mora de frente para o mar no Aquarius, último prédio de estilo antigo da Av. Boa Viagem, no Recife. Jornalista aposentada e escritora, viúva com três filhos adultos e dona de um aconchegante apartamento repleto de discos e livros, ela irá enfrentar as investidas de uma construtora que tem outros planos para aquele terreno: demolir o Aquarius e dar lugar a um novo empreendimento.

CRÍTICA | AQUARIUS
Direção
Roteiro
Elenco
Fotografia
Trilha Sonora
Pontos Positivos
  • Direção
  • Trilha Sonora
  • Sonia Braga
Pontos Negativos
  • Excesso de questões abordadas
4.7Pontuação geral
Avaliação do leitor: (0 Votos)

Comentários

comentários