CRÍTICA | ANIMAIS NOTURNOS
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‘O EU E A ARTE’

No que a arte pode mudar uma vida? O que nossa própria vida pode impactar na arte que vemos e vivemos? Até que ponto uma se entrelaça com a outra de maneira indispensável? O que a arte pode servir na vida de alguém perfeito? Com duas horas de filme, é preciso adotar diversas camadas para que tantas perguntas sejam construídas e, por isso, usa-se todos os recursos e adereços necessários para tal.

Amy Adam é Susan Morrow em ”Animais Noturnos’

Em Animais Noturnos, o vazio instalado na personalidade de Susan Morrow (Amy Adams) entranha por todos os cantos do cenário até que seu ex-marido, Edward (Jake Gyllenhaal), a envia um pacote com o livro que escreveu com dedicatória a ela. Susan é casada e procura, por meio de flashbacks, se questionar sobre as consequências de suas escolhas e movimentações da vida enquanto imerge no thriller que é o romance de Edward. O filme se desenvolve em três linhas diferentes que se conectam em uma montagem inteligente e simbólica. Não há cenário, efeito sonoro, objetos ou personagens que, mesmo não aparentemente, não se conectem para contar essa(s) história(s) violenta(s) e niilista(s) de vingança.

O mais importante aqui é a fluidez que as histórias se tornam uma só de maneira densa e bem-feita. Se o mundo extra estilizado do diretor Tom Ford (Direito de Amar, de 2009) pudesse chamar mais atenção pela duplicidade perfeita de realidade geraria mais incomodo e perderia o hiper-realismo adotado. Erro comum no cinema atual, ponto positivo para o diretor. Da mesma forma, quem se lembra da atuação de Gyllenhaal no recente O Abutre (2014), pensa o mesmo. Era medo de encontrar o famoso over-acting sem necessidade, mas a competência do ator ultrapassou esse obstáculo, se aproximando mais de sua atuação em Nocaute (2015), e fez jus a sua companheira de protagonismo, Amy Adams, de A Chegada (2016), que está em cartaz com dois dramas importantes e marcantes, mostrando que merece seu lugar até aqui.

‘Jake Gyllenhaal’ é um dos destaques da história

Para uma personagem contemplativa e esteticamente lapidada (e, mais uma vez, a área plástica se encontra com a narrativa), houve uma introspecção clara e profunda, especialmente por não compartilhar com os contornos das outras linhas históricas do filme. Nesse momento, entra em cena sua sócia não-perfeita, interpretada por Isla Fisher (Truque de Mestre, de 2013), parte da provocação planejada por Edward. O livro dentro do filme é a opção de expurgar sua vingança contra Susan e ela mesma se torna persona em diversos personagens, interpretados por diversos atores fora-de-si mesmos dançando junto com o hiper-realismo e violência adotados, puxando referencia direta de Hitchcock e Lynch.

O roteiro é complexo e forma uma estrutura coerente com seu objetivo não linear, baseado no livro Tony & Susan, escrito por Austin Wright. Seria difícil tomar conta de tanto drama e complexidade sem a ajuda técnica para completar todos os significados necessários e, muita sorte (ou estudo ou talento), ainda há espaço para um trabalho meticuloso e bem feito, porém dramático e obscuro ao extremo, às vezes ignorado em premiações, mas importante para quem experimenta e, de fato, esse é o alvo.

O fio condutor dessa trama é entender a experiência artística, a visão e a contemplação que cada um pode ter diante de uma obra. No caso do expectador, é diante do filme e suas diversas formas físicas e metafísicas de tocar pessoalmente o público (mesmo em massa, individualmente) e, por meio de interpretação intrínseca ao subjetivo, desenvolver suas próprias histórias de purgação.

Ficha Técnica

ANIMAIS NOTURNOS (Nocturnal Animals)
Distribuidor: Universal Pictures
Gênero: Drama, Suspense
Classificação Etária: 16 anos
Data de Lançamento:  29 de dezembro de 2016
Tempo de Duração: 1h e 57 minutos
Direção: Tom Ford
Roteiro: Tom Ford
Produção: Tom Ford
Edição: Joan Sobel

Elenco: Amy Adams, Jake Gyllenhaal, Michael Shannon, Aaron Taylor-Johnson, Isla Fisher, Armie Hammer, Laura Linney, Andrea Riseborough e Michael Sheen

Sinopse:

Susan é uma negociante de arte que se sente cada vez mais isolada do parceiro. Um dia, ela recebe um manuscrito de autoria de Edward, seu primeiro marido. Por sua vez, o trágico livro acompanha o personagem Tony Hastings, um homem que leva sua esposa e filha para tirar férias, mas o passeio toma um rumo violento ao cruzar o caminho de uma gangue. Durante a tensa leitura, Susan pensa sobre as razões de ter recebido o texto, descobre verdades dolorosas sobre si mesma e relembra traumas de seu relacionamento fracassado.

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