‘MESTRE DO TROLOLÓ’

Uma revelação tardia no mundo do cinema, o austríaco Christoph Waltz só conheceu a fama na maturidade, ainda que sua primeira produção cinematográfica Kopfstand date de 1981.  Tendo estudado atuação no Max Reinhardt Seminar e depois estudado por um período em Nova York com os célebres mestres do método Lee Strasberg e Stela Adler, Waltz tornou-se um prolífico ator de televisão, chegando até mesmo debutar na direção na produção televisiva alemã Wenn man sich traut. Vamos conhecer os papéis que marcaram sua carreira?


 

 Dr. Hans-Joachim Dorfmann em The Gravy Train (1990)

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Minissérie de 4 episódios da televisão britânica sobre intrigas e bastidores em escritórios da União Européia em Bruxelas, trazendo Waltz como um novo membro do Conselho Econômico Europeu que rapidamente se decepciona com seus companheiros de profissão gananciosos e mesquinhos. Apesar do tema sério, o tratamento dado é cômico, com o protagonista vivendo desventura atrás de desventura, o que rendeu uma boa audiência e inclusive teve uma sequência no ano seguinte, The Gravy Train Goes East.


 

 Coronel Hans Landa em Bastardos Inglórios (2009)

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Revelado então para o mundo no épico de guerra de Quentin Tarantino, Waltz impressionou meio mundo quando interpretou o vilão Hans Landa, fictício comandante da SS, a polícia secreta de Adolf Hitler. O que mais causou impacto é que ao contrário de certos retratos de nazistas na ficção – como os brucutus robóticos que vemos em clássicos como A Lista de Schindler e O Pianista – Landa era sofisticado, poliglota, educado a um nível irritante, charmoso e carismático. Mas também, quando a situação pedia,  um completo sociopata, matando a sangue frio e aproveitando cada oportunidade que tem para conseguir poder e dinheiro, pouco ligando para ideologias ou juramentos. Interpretado pelo ator em vários tons, entre a sofisticação e a brutalidade, entre a afetação e a barbárie, Landa entrou nos anais do cinema como um dos grandes vilões recentes. Também valeu a Waltz um Oscar de melhor ator coadjuvante.


 

 Alan Cowan em O Deus da Carnificina (2011)

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Hans Landa foi um impacto tão grande na cultura popular que no seguinte ao lançamento de Bastardos, Waltz atuou em quatro filmes de grande expressão em 2011: o mal-sucedido filme de super-heróis Besouro Verde, a adaptação Os Três Mosqueteiros (onde interpretou o clássico vilão Cardeal Richelieu), o drama romântico circense Água Para Elefantes e esse Deus da Carnificina, adaptação de uma peça de teatro dirigida pelo célebre e famigerado cineasta Roman Polanski enquanto o mesmo esteve preso. Uma comédia de humor negro levada ao limite do grotesco onde Waltz interpreta Alan, o pai de uma criança que agrediu outra. Sua interpretação de pessoa desprezível, mesquinha e encrenqueira que só liga para os negócios e vive pendurado no celular é impagável e dos quatro detestáveis personagens que protagonizam a peça e o filme, o carisma do ator é mais do que eficiente para tornar ele o pior de todos – e também o melhor em resultado, por extensão.


 

 Doutor King Schultz em Django Livre (2012)

Waltz e Tarantino repetiram a parceria, com o austríaco tendo se tornado o novo ator-fetiche do americano. Agora, talvez como uma redenção ao alemão seboso e ambíguo de Bastardos Inglórios, o dentista tornado caçador de recompensas que interpreta em Django parece agora um grande elogio. Schultz liberta Django da escravidão, o ensina a atirar e o ajuda a perseguir o paradeiro da esposa do protagonista, enquanto o ensina sobre mitologia alemã (a saga dos Nibelungos) e desbanca o racismo de personagens como o dono de terras e escravagista Calvin Candie de maneira cômica e tensa ao mesmo tempo. Ainda que não tão marcante quanto Hans Landa, Schultz valeu um segundo Oscar para Waltz, provando que a parceria ainda pode dar muitos frutos. Seu clímax no filme é tão catártico quanto trágico.


 

 Ernst Stavro Blofeld em 007 contra SPECTRE (2015)

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Olha a responsabilidade: Blofeld, o supervilão, inimigo de James Bond, o gênio do mal, o arquetípico careca de monóculo que anda com um gato persa no colo para lá e para cá, interpretado anteriormente por lendas do cinema como Donald Pleasence, Telly Savalas e Max Von Sydow. E em 2015 Waltz vestiu o manto para ser o antagonista do James Bond de Daniel Craig. Agora, o líder da Organização Criminosa SPECTRE ganhou um novo background que, sem contar muitos spoilers, o ligam de maneira muito mais íntima a James Bond, mas ainda mantendo algumas assinaturas visuais do personagem – como o terno sem lapela e o gato persa. Landa virou sua representação clichê que ele repete aqui: o vilão perigoso e frio que também sabe ser adorável e charmoso, com os diálogos cortantes entre Blofeld e Bond sendo tão ou mais recheados de tensão quanto as próprias cenas de ação e suspense em si. Falando da era Craig, ainda não nos dá o calafrio na espinha que o Le Chiffre de Mads Mikkelsen em Cassino Royale provoca, mas ainda assim é capaz de provocar algumas risadas nervosas e queixos caídos. 

Bônus:

Sendo o autor do artigo um apaixonado por vídeos trash de internet, não dá para não destacar a inesquecível versão de Waltz para o viral “Trololó”. Confira no vídeo:

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